Emílio Orciollo Netto, de 52 anos, está em Portugal por estes dias. O ator brasileiro apresenta por cá um monólogo intenso e poderoso, inspirado nas cartas da consagrada autora Martha Medeiros.
"Também Queria Te Dizer" é o nome do espetáculo e foi o ponto de partida para chegarmos à fala com Emílio Orciollo.
O artista brasileiro, que fez parte de novelas de enorme sucesso como "Rei do Gado", "Anjo Mau" e "Desejo Proibido", recordou em entrevista ao Fama ao Minuto uma das suas personagens mais icónicas. O inesquecível Crispim da novela "Alma Gémea", que há mais de 20 anos fez enorme sucesso no Brasil e em Portugal, e que curiosamente é lembrando no monólogo que agora o traz cá.
"Também Queria Te Dizer" está em cena com dois espetáculos. O primeiro a 30 de janeiro no Teatro da Luz, em Lisboa, e o segundo a 31 de janeiro na Sala Estúdio-Latino (TSB), Porto.
Emílio, começo por perguntar-lhe, como surgiu a possibilidade de trazer a Portugal o monólogo "Também Queria Te Dizer"?
Sempre tive o desejo de fazer um espetáculo aqui em Portugal, há algum tempo tinha esse desejo, e surgiu o convite da LS Entertainment. É um espetáculo intimista, viajo sozinho, é um monólogo, então é mais fácil a produção adequar-se aos teatros. Viajo o Brasil inteiro com esse espetáculo.
O Marcelo Faria também veio para cá fazer um espetáculo, "O Cravo e a Rosa", ele indicou-me e o convite surgiu. Então, cá estou eu, muito feliz, para poder fazer essa peça para vocês a 30 de janeiro em Lisboa e 31 no Porto.

© Divulgação LS Entertainment
Quem for assistir a este espetáculo, o que pode esperar?
É uma peça muito delicada, artesanal, teatro de raiz. Podem esperar um texto muito potente que chegue ao coração do público. São sete cartas de sete homens diferentes que não conseguiram expressar-se através da fala mas, sim, da escrita. E o meu desafio é interpretá-las na primeira pessoa, apenas com o meu corpo, a minha voz, uma cadeira e uma trilha [banda sonora] linda. É teatro na veia.
Martha Medeiros é uma autora especial para si?
Sim, a Marta Medeiros é uma autora muito especial para mim, uma das autoras mais respeitadas no Brasil, uma das maiores autoras no país. Também é cronista, escreve livros, é uma autora muito potente. Tenho muito orgulho e honra de poder fazer este espetáculo e acho que o melhor é que é um olhar feminino sobre o comportamento masculino. A Marta Medeiros é uma profunda conhecedora da alma do ser humano, independente do género. Sou fã dela.
É uma peça que mexe com sentimentos profundos e acho que esse é o sucesso, porque comunica, é simples, direto ao público
Neste espetáculo, o Emilio dá voz a sete cartas masculinas que exaltam sentimentos profundos como amor, culpa, medo. Fala de sentimentos que ainda são pouco abordados por homens, esta peça procura ser disruptiva nesse sentido?
Há sempre exceções, obviamente, mas de maneira geral os homens têm dificuldade em expressar os seus sentimentos. Esta peça mostra desabafos de homens em situações limites e isso é bonito. Mostra a vulnerabilidade à flor da pele dos homens. É um texto comovente e, para mim, é um honra poder fazer esta peça e expressar estes sentimentos todos e comunicar com o público, fazer com que o público também se aproxime desses sentimentos e da alma desses homens.
Para si é fácil falar, expor as suas emoções ou este texto acabou também por colocá-lo à prova nesse sentido?
Sou um homem que fala bastante de sentimentos, exponho-me, não tenho problema nenhum em mostrar as minhas vulnerabilidades, os meus defeitos, as minhas virtudes, mas é sempre um desafio, é sempre um lugar de exposição. Acabas por mexer com sentimentos profundos e tens de estar muito bem resolvido, preparado. É uma peça que mexe com sentimentos profundos e acho que esse é o sucesso da peça, porque comunica, é simples, direto ao público. É de fácil entendimento e acesso.
Não ter cenário, nem adereços, é neste caso uma forma de dar ainda mais destaque à palavra?
Tudo o que o ator precisa é de um bom texto, um texto potente. O teatro tem esse poder de reflexão, existencialista, amorosa, da vida como ela é. Poder fazer este espetáculo para mim é um grande exercício de interpretação, sem adereços, apenas uma cadeira e um desafio diário para poder contar histórias através do meu talento.

© Divulgação LS Entertainment
O Emílio já veio a Portugal algumas vezes, tem amigos por cá, como espera que o público português receba este espetáculo?
Já vim cá algumas vezes, adoro estar aqui. Já vim para o Rock in Rio, vim fazer o Caminho de Santiago, vim visitar amigos. Tenho muitos amigos brasileiros que vivem aqui. Adoro o Algarve. Agora está frio e chuva, mas sempre que posso vou para lá quando venho. Sinto-me em casa aqui em Portugal, tenho uma receção muito querida pelos amigos brasileiros e também pelos portugueses que admiram o meu trabalho.
O que mais gosta de visitar, fazer e comer quando visita Portugal?
Gosto muito dos roteiros gastronómicos, dos restaurantes, do vinho, o vinho do Dão. É muito prazeroso vir para cá. Tanto em Lisboa como no Porto, a gastronomia e andar nas ruas para mim é inspirador.
Por cá, tal como no Brasil, o Emílio fez um enorme sucesso com a personagem Crispim de "Alma Gémea". Esta novela foi um marco na sua carreira?
Sim, a novela "Alma Gémea" foi uma novela exibida há muitos anos. O Crispim e toda a brincadeira em volta desse personagem icónico é, sem dúvida nenhuma, o personagem com maior sucesso popular que fiz até hoje nas novelas. Qualquer lugar onde vá, tenho esse carinho do público, na própria peça faço uma brincadeira num determinado momento com isso. É uma identificação carinhosa, agradeço ao público por tanto carinho e respeito ao meu trabalho
Tenho muita vontade de fazer um filme aqui [em Portugal], fazer uma novela
Até hoje pedem para eu chamar "Miiirna" e eu faço. Nesta peça há uma brincadeira a esse respeito, quem for assistir vai poder perceber e divertir-se. Há um momento Crispim na peça.
Atualmente tem estado menos presente nas telenovelas brasileiras e mais dedicado ao teatro e cinema, trata-se de uma opção sua?
Tenho trabalhado muito, tenho feito muito teatro, muito cinema e muitas séries. Graças a Deus não paro de trabalhar, o streaming é uma realidade no nosso país, o cinema brasileiro está cada vez mais forte, o Wagner Moura indicado ao Óscar, a Fernanda Torres ganhou o Globo de Ouro, o cinema esta potente. Adoro fazer novelas, já já volto, é só uma questão de ter agenda e de conciliar as oportunidades. Daqui a pouco vai ser o momento certo de voltar para uma telenovela.
Foram já vários os atores brasileiros a colaborarem com produções nacionais, nomeadamente série e telenovelas, gostaria de fazer parte de um projeto de ficção por cá?
Sim, tenho muita vontade de poder trabalhar no audiovisual aqui, fazer um filme aqui, fazer uma novela, tenho alguns amigos que trabalham aqui, atores e diretores. Se tiver um convite bom para um projeto que também seja bom, venho para cá com o maior prazer. Até porque tenho cidadania italiana e isso acaba por proporcionar-me livre acesso na Europa, então para mim é um prazer. É esperar um convite certeiro.

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