Joana Gama é "humorista", mas é o título de "comediante" que mais lhe dá orgulho. Antes de chegar a esses palcos, foi locutora nas principais rádios nacionais, como a Mega Hits, RFM e Antena 3, e teve ainda destaque em televisão, nomeadamente na RTP e na SIC Radical.
Autora e criadora de inúmeros projetos no digital, a comunicadora está agora em cena com o espetáculo de stand up, "Não sei ser" (nome de um dos seus podcasts) que tem datas disponíveis ainda este mês.
Poderá divertir-se e ouvir Joana Gama no este sábado, dia 22 de novembro, no Auditório Escola Secundária Sá Miranda em Braga, dia 25 de novembro no Salão Brazil, em Coimbra, dia 28 de novembro na Sala Jaime Salazar Sampaio, em Leiria, e ainda dia 29 de novembro no Teatro Sá Da Bandeira, no Porto.
Como é que começou o gosto pelo mundo do entretenimento?
Comecei em 2007, quando saí da universidade. Na altura, não sabia o que é queria fazer depois do meu curso, Comunicação Social, porque achei que era bastante abrangente e depois logo escolheria. Acabei por ser escolhida para a Mega Hits, que era a rádio que eu mais adorava, nunca tinha pensado em ser locutora nem nada do género.
Como é que foi a experiência de trabalhar tantos anos na rádio?
Foi muito, muito bom. Estive lá durante mais de dez anos (com interregnos), trabalhei na RFM, para o Café da Manhã. Foi a minha primeira experiência de emprego a sério num ambiente muito positivo. No entanto, o trabalho em rádio é muito fabril, todos os dias temos de fazer pesquisa, de ler coisas... No meu caso, ser engraçada também. Fiz [programas] em todos os painéis. Nas manhãs fiz O proGAMA da Joana e depois fiz outros programas em dupla, fiz imensa coisa, foram muitos anos. Fazia sempre em antena e também back office.
O chamado "bichinho da rádio" existe? Sente que o foi perdendo?
Nunca senti isso, acho que existe mais o bichinho da comunicação. A malta fica é com saudades de comunicar, de falar com o público, pelo menos é isso que eu sinto. Sinto-me comunicadora no geral, independentemente da plataforma, nunca senti que rádio fosse a minha vida, ou que televisão fosse a minha vida. A minha vida é falar com e para pessoas.
E gosta dessa adrenalina, de estar em direto, e agora, com a profissão de comediante, estar a fazer espetáculos?
É muito mais interessante porque o resto [profissão antiga] apela ao lado fabril da coisa. Em stand-up gosto de ter o feedback imediato do público, tanto positivo como negativo, isso é bom. Por um lado é bom sabermos para onde estamos a ir mas, por outro, quando não corre bem dói um bocadinho.
A minha vida é tão aborrecida que não tenho grande coisa mais para falar a não ser sobre mim mesma
Como é que fez essa passagem da rádio para o stand-up? O que é que estava à procura?
[O trabalho] na rádio começa a ficar aborrecido e começo a ver workshops, sempre gostei muito de aprender - por mim estudava a vida toda -, vi cursos de fotografia, cursos de stand-up comedy, mas nunca me tinha posto nesse lugar. Quando cheguei à Mega Hits percebi que tinha mais tendência do que os meus colegas para, em qualquer momento de intervenção que houvesse em rádio, ser engraçada e não informativa. Isso foi-se construindo em mim, para mim era natural, não senti que tivesse algum talento. Fui então fazer esse curso de stand-up comedy. A mais-valia era que depois havia um encaminhamento para palco, a minha primeira atuação foi com o Raminhos. Punham-nos a atuar todas as semanas em bares.
E como é que o humor se torna uma profissão na sua vida?
[O curso] foi uma ótima entrada no circuito e comecei a fazer stand-up como hobby. Fiz isso paralelamente à rádio até há seis anos, quando saí da rádio. Fiz sempre como uma espécie de hobby, mas a sério. Ia atuar bastante a sério, já recebia dinheiro em atuações.
Hoje a Joana é humorista, comediante... Como é que gosta mais de ser chamada?
A nomenclatura de que mais gosto é comediante porque me remete para palco. Mas acho que a mais correta é humorista porque faço humor nas várias plataformas. Mas comediante dá-me um orgulhinho.
Que ferramentas é que a rádio lhe deu para a carreira de comediante?
Todas. Eu já tinha algumas coisas a priori, um raciocínio rápido sempre tive, sempre fui articulada a falar, mas a rádio deu técnica, dicção, respiração e também fui obrigada a criar a minha persona. Sentirem que a Joana da rádio era eu, mas era uma Joana que já se apresentava ao público, que já tinha as suas características.
A Joana acabou por abraçar ainda outras áreas: blogues, podcasts, escreveu também dois livros, um deles sobre maternidade. Há muitos desabafos para serem feitos com a maternidade, muitos desabafos para deitar cá para fora?
Há, é um tema muito rico que surgiu por necessidade. Eu e a Joana Paixão Brás [com quem escreveu a obra "A Mãe é que Sabe"] tivemos as duas miúdas ao mesmo tempo, estávamos em pós-parto e nós éramos muito oposto uma da outra. [Nessa altura] a minha personalidade estava apagada, passei por uma depressão pós-parto. E os desabafos surgiram nesse sentido, sentimos que na internet não havia, na altura, - agora já é mais comum - um desabafo mais livre e verdadeiro. Divertimo-nos imenso a fazer isso e foi mesmo também muito importante para mim porque, tal como depois num podcast que vim a fazer, o Psycoterapia, o desabafar dos meus sentimentos fazia com que a comunidade se sentisse identificada, as pessoas sentiam-se menos sozinhas e eu também.
Sente que a necessidade e gosto de fazer tantos projetos ao longo dos anos vem de ter uma mente 'inquieta', sempre a fervilhar com ideias novas e com muita coisa para dizer?
Não sinto que tenha assim tanta coisa para dizer e quanto mais vou ficando equilibrada e adulta - apesar de manter o meu humor de observação e a minha cabeça com um diálogo interno super rápido e intenso -, a minha vida teve a tendência de se tornar cada vez mais aborrecida e sensata. Agora ando num processo diferente. Claro que falar sobre mim continua a ser um foco, dado o meu egocentrismo, mas também é difícil não falar sobre mim própria. Mas tenho tido mais vontade e necessidade de falar de outras coisas, de ser mais leve. A necessidade de validação está menos patológica por eu estar mais segura. E, portanto, o meu estilo de humor vai mudando ao longo do tempo.
A Joana acha-se uma pessoa egocêntrica?
No meu caso acho que tem a ver com a minha personalidade à medida que ia crescendo, revoltei-me, tinha sentimentos muito intensos em tudo, então os meus mecanismos de defesa fizeram com que ficasse mais fechada em mim própria. E, como já disse, a minha vida é tão aborrecida que eu não tenho grande coisa mais para falar a não ser sobre mim mesma.
Falando do seu espetáculo, "Não sei ser", o que é que podemos esperar?
A ideia do conceito do "Não Sei Ser", que tem o mesmo nome do meu podcast, é não haver conceito, é experimentar a liberdade total em palco. Inspiro-me no dia a dia. Uma coisa da qual me tenho afastado um bocadinho é da escrita de guião e de fazer uma coisa mais matemática, também para me libertar um bocadinho da amarra de transformar a arte em algo profissional. Era algo que me estava a custar um bocadinho. Se começar a matematizar o humor, deixo de me divertir tanto. Agora, à medida que vou fazendo cada vez mais datas, estou a notar que o conceito fica um bocadinho mais híbrido.
Estou mais segura, mais saudável de cabeça, só agora é eu sinto que não me estou a sabotar
Com alguns anos de profissão ainda fica nervosa antes de fazer um espetáculo?
É bom que fique. Quando não estou nervosa é porque ainda não me capacitei daquilo que vou fazer. É porque estou à paisana, como costumo dizer.
Olhando para o futuro, o que é que a Joana gostava de fazer? Qual é que é o seu sonho?
Talvez, profissionalizar o trabalho. Não gosto de usar essa palavra porque parece que não fui profissional até agora, mas existe este lado de ter de pensar sobre as coisas e eu só estou a ganhá-lo agora. Estou mais segura, mais saudável de cabeça, só agora é sinto que não me estou a sabotar e, portanto só agora é estou a conhecer os meus horizontes. Só agora é estou com fé em mim e ainda não percebi bem. Aquilo que quero é avançar, é fazer mais, melhor, para mais pessoas. Penso [no futuro] em termos do stand-up comedy e não associo a outras coisas, mas vejo todos os projetos que faça como necessários para esse objetivo. Para criar notoriedade, para criar ligação com as pessoas, para tudo o resto, porque ser só comediante não chega, temos de disputar o espaço coletivo de atenção digital.
As redes sociais são fundamentais para um humorista hoje em dia? Para venderem o seu trabalho, para se mostrarem ao público antes de chegarem aos espetáculos?
Sinto que sim, apesar de haver várias estratégias e várias gerações. Os critérios de implementação estratégica digital para cada geração muda. Por exemplo, esta nova geração de stand-up aposta mais na qualidade do que na quantidade.
Não tinha alegria de viver. Não tinha nada, era só racional e aborrecida
Para a Joana há, ou não, limites no humor?
Depende da forma. É só isso. E a forma implica o contexto. Fazer humor não é só para uma pessoa se rir mas acho que não há limites. Pode-se falar sobre tudo, deve-se falar sobre tudo, deve-se falar especialmente sobre aquilo que não se quer falar, é isso que eu gosto de fazer, mas a forma é importante, tem de ser humor, não pode ser só gritos e desabafos, tem de fazer rir.
Falando de saúde mental, é público que a Joana passou por um episódio mais complicado a esse nível. Como é que foi lidar com isso?
Foi muito bom perceber que a minha unicidade se devia a algum desencaixe da normalidade e que a responsabilidade não era inteiramente das minhas decisões. Todos nós sabemos que a nossa personalidade é formada geneticamente, ambientalmente, e ainda não tinha percebido porque é que me sentia errada, muito sozinha e incompreendida. Esses sentimentos todos que tinha levavam-me a tomar decisões ou a ter sentimentos que me faziam sempre pior. Sentia que as decisões pioravam a minha qualidade de vida, o que me fazia sentir cada vez mais burra. Não tinha joie de vivre [expressão francesa que significa "alegria de viver"]. Não tinha nada, era só racional e aborrecida. Decidi ir a um psiquiatra, apesar de a terapia sempre me ter ajudado, e a partir do momento em que fui ao psiquiatra fez-se luz. Sinto que sou eu.
Qual foi o diagnóstico?
Bipolaridade, stress pós-traumático, ansiedade generalizada, várias coisas... Estou a tomar estabilizadores de humor e a minha qualidade de vida melhorou. Não me consigo imaginar um dia a querer deixar de tomar aquilo que tomo. Assusta-me zero dizerem-me que tenho de tomar isto para o resto da minha vida.
Foi um alívio ter, finalmente, um diagnóstico?
Foi um alívio porque me retirou o sentimento de ser incapaz de me fazer feliz. Tentei tudo, apanhei sol, bebia água, fazia exercício, bebia chá, fazia tudo e nada chegava, estava cansada e cada vez mais deprimida. Por outro lado, há um caminho a fazer que é o diagnóstico não se tornar a minha identidade. É importante não nos tornarmos nessa doença para nos sentirmos pessoas aptas na mesma. Para não enviesarmos a realidade a nosso favor numa espécie de vitimização.

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