Gisela João Critica Preços Da Habitação Em Portugal

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Mesmo estando "doente", Gisela João não deixa de acompanhar de perto as notícias sobre as manifestações pela habitação e quis pronunciar-se publicamente.


"Entre o trabalho e ficar colada à cama, doente, ainda não consegui ir para a rua. E isso deixa-me frustrada e triste. Vejo publicações de amigos em quem confio, vejo as notícias e só me dá vontade de chorar perante a sensação de impotência. Porque há coisas que estão à vista de toda a gente e, ainda assim, parece que continuamos sem saber o que fazer com elas", começou por dizer numa publicação que fez na sua página de Instagram no domingo, dia 25 de outubro, após a polémica ação da PSP contra os manifestante no Porto e Lisboa, que resultou em vários feridos e algumas pessoas detidas. 

Notícias ao MinutoPublicação de Gisela João© Instagram_giselajoaoaberdadeira

 

"Há uns meses, quando vi nas notícias que o valor de 2.300€ era considerado uma renda acessível no meu país, caiu-me o queixo. Nem consegui perceber como é que se chega a este valor num país onde o ordenado mínimo não chega aos 1.000€. Para mim, isto é suficiente para perceber que a conta está muito para lá de errada", recordou, referindo-se à nova lei de arrendamento proposta pelo Governo.

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"O meu bairro era um bairro familiar. Hoje, há pessoas a dormir no meio da rua. Durante muito tempo, houve tendas sem fim em frente à AIMA, que desapareceram todas rapidamente, numa noite, de 4 para 5 de outubro, por causa das obras dos anjinhos da igreja ao lado", partilhou depois. 

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"As mercearias, as frutarias, os talhos, os cafés e os restaurantes de bairro foram desaparecendo. Muitos deram lugar a lojas descuidadas que claramente não vendem muito, mas pagam rendas com tantos zeros que até nos abanam. Sei do que falo: eu e o senhor João, que tinha um café aqui na esquina, íamos sabendo os valores das lojas para arrendar", acrescentou. 

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"E há as pessoas que trabalham nesses espaços, muitas vezes em condições que parecem de exploração. Não são essas pessoas que fazem subir o preço das casas. Não são, acreditem. Converso e convivo diariamente com elas. Conheço um bocadinho das suas vidas e sei que também estão a tentar sobreviver", continuou.

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"Ao mesmo tempo, o meu bairro enche-se de salas de yoga e de pilates, de yoga com cabras, de cafés modernos com preços que não são para nós, de restaurantes e bares feitos para o Instagram, de matcha latte, tostas de abacate e cafés a 8€. Lugares onde o bom dia nem é em português ao contrário das outras lojas onde os bons dias são em português e com um sorriso de quem quer fazer parte", comentou de seguida. 

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"Sei do que falo. Fui experimentar uma aula de pilates e, no final, perguntei se havia algum horário com aulas em português. Prefiro. Não há", salientou. 

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"No outro dia, sentada na esplanada aqui ao lado, ouvi umas americanas a dizer a umas amigas, que percebi estarem de visita, que o bairro era super cool, que era super barato e que havia casas amazing por 2.500€ ou 3.000€. Nem sequer consegui evitar ouvir aquela conversa. Senti inveja. Não gostei da pessoa em que me senti transformar naquele momento, mas apeteceu-me mesmo virar- lhes a mesa ao contrário", contou, mencionando a chegada de turistas com um maior poder de compra.

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"Porque aquilo que para umas pessoas é barato, para outras é a impossibilidade de continuar a viver no lugar a que chamam casa", frisou.

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"Percebo que a situação internacional é muito instável e que isso torna a vida mais cara. Percebo que há decisões dificílimas para tomar e que qualquer decisão terá consequências e fará doer alguém. Mas também sei que eu e a minha geração levámos com uma crise gigante, com uma troika, com uma pandemia e com tudo o que veio depois. E, no meio de tudo isto, não temos feito muito mais do que resistir. Tanto ou mais do que os nossos pais e avós, porque as dificuldades são diferentes e as oportunidades parecem cada vez mais escassas", disse ainda. 

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"Venho de um lugar onde havia muitas dificuldades. E posso garantir a quem for que o facto de ter uma casa sempre me amparou na dureza do caminho.
Mesmo quando tudo parecia um problema, mesmo quando não conseguia ver luz ao fundo do túnel, saber que tinha - que tenho - o meu cantinho deu-me sempre dignidade. Deu-me chão. Deu-me uma base a partir da qual podia continuar.

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"Por isso, custa-me tanto ver aquilo que está a acontecer. Quem sou eu para ter respostas para isto? Quem sou eu para reclamar ou apontar o dedo? Não sei. Mas acho que esta questão ultrapassa partidos. Quem sou eu, que não sou política, mas que tento fazer política todos os dias com as minhas escolhas, com aquilo em que acredito e com a forma como trato as pessoas?", destacou igualmente.

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"Pessoas. É disso que se trata. Pessoas que vivem, trabalham, criam os seus filhos, tentam pagar as suas contas e querem ter um lugar no mundo onde possam simplesmente existir com dignidade", salientou. 

Notícias ao Minuto[Legenda]© Instagram_giselajoaoaberdadeira

 

"E depois mandam-nos ter filhos. Mas como é que se constrói uma família quando nem sequer podemos ter uma casa? Mandam-nos ter filhos para depois irem para a rua lutar por um país que lhes bate e os deita ao chão. Mandam-nos ter filhos para que nem sequer possam sonhar", pode ler-se, por fim, na publicação de Gisela João.

Notícias ao MinutoPublicação de Gisela João© Instagram_giselajoaoaberdadeira

 

De recordar que Gisela João vive atualmente uma fase delicada. Recentemente, a fadista revelou que o irmão foi diagnosticado com cancro, no passado mês de agosto. A cantora tem estado, desde então, dedicada a ajudá-lo. 

"Desde o primeiro dia, não tive dúvidas de que faria tudo o que estivesse ao meu alcance. Até cortar um braço, se fosse preciso, para o ter ao meu lado durante muitos anos e continuar a azucrinar-lhe a cabeça", disse numa publicação que fez igualmente na sua página de Instagram, onde abordou ainda a importância de doar medula óssea e apelou para que todos os que consigam façam o mesmo. 

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