Carolina Deslandes recorda episódios graves de assédio na noite de Lisboa e as reações inacreditáveis que enfrentou. Conheça o relato da artista.
O debate em torno da segurança das mulheres na noite ganhou um novo fôlego. Numa conversa descontraída, mas carregada de partilhas sérias no podcast Não Mandas em Mim, conduzido por Inês Lopes Gonçalves, Carolina Deslandes abriu o livro sobre o seu passado. A artista recordou episódios graves de assédio que sofreu na juventude e a forma como a sociedade lidava com o tema na altura.
O primeiro soco no estômago recordado pela cantora aconteceu quando tinha apenas 18 anos e trabalhava na área da restauração. A reação de quem geria o espaço foi o primeiro sinal de uma mentalidade que, felizmente, hoje começa a ser desconstruída.
“Quem te mandou vir de leggings?”
Perante o comportamento abusivo de um cliente, o apoio que a artista encontrou no local de trabalho foi nulo. O episódio ficou gravado na memória: “Levei um apalpão de um cliente e o gerente disse: ‘Quem te mandou vir de leggings?’. E lembro-me de toda a gente concordar com aquilo, do género: ‘Sim, isso não é forma de vir trabalhar’”, recordou na entrevista com a apresentadora e com o amigo de infância Martim Sousa Tavares.
Este tipo de desculpabilização do agressor era o cenário padrão há uma década e meia, algo que se estendia de forma ainda mais agressiva para os espaços de diversão noturna da capital.
“Fui expulsa de quase todas as discotecas”
A postura de Carolina Deslandes perante a invasão do seu espaço físico sempre foi de confronto. No entanto, na altura, os sistemas de segurança dos recintos pareciam não estar preparados para proteger as vítimas, resultando em desfechos caricatos e injustos para a compositora.
“Eu fui expulsa de quase todas as discotecas onde fui por bater em homens que me apalparam o rabo”, revelou sem rodeios. A artista aproveitou o momento para fazer um paralelismo com a realidade atual, notando o choque cultural quando tenta explicar o panorama de outrora às camadas mais jovens: “Às vezes, tento explicar isto às gerações mais novas que, na altura, se tu batesses num homem que te tinha apalpado o rabo, tu estavas a exagerar, eu não estou a mentir”.
O perigo de ter a bebida “minada”
O relato subiu de tom quando o assunto passou do assédio físico para o crime por subrepção de substâncias — o fenómeno atualmente conhecido como spiking. A cantora partilhou uma experiência traumática vivida numa das pistas de dança mais conhecidas da noite lisboeta.
“Eu fui ‘minada’ no Garage”, confessou, referindo-se à mítica discoteca de Lisboa. A rapidez com que percebeu a gravidade da situação deveu-se a um detalhe simples: não estava sob o efeito de álcool. “Eu fui ‘minada’ no Garage. Não estava a beber álcool e senti-me mal”, explicou, deixando claro que o perigo na noite surge muitas vezes de forma silenciosa e invisível.
O testemunho sem filtros da artista serve não só como um murro no estômago sobre o passado recente, mas também como um lembrete de que a discussão sobre o consentimento e a segurança nos espaços públicos continua a ser uma prioridade absoluta.
Fotos: Reprodução Instagram

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