“Pensámos Que Iria Ser um Flop”: Os Vizinhos Falam Sobre o Sucesso que Uniu Gerações



Foi numa noite boémia entre amigos que criaram uma das canções mais ouvidas de 2025 em Portugal. O tema "Pôr do Sol" tornou-os nos Vizinhos mais conhecidos do país, sendo por muitos considerados a banda revelação do momento. 


David Mendonça, Francisco Cartaxo, Miguel Brites e Tomás Cartaxo conheceram-se na Universidade de Évora, terra de onde são naturais. Rapidamente perceberam que não podiam ficar parados e juntos decidiram unir vozes, acordeão, bandolim, guitarra e baixo para criar uma banda do zero com os coliseus como meta.

Dias depois de terem lançado o primeiro álbum, e com o espetáculo nos coliseus de Lisboa e Porto quase esgotados, os quatro elementos da banda conversaram com o Notícias ao Minuto.

Numa entrevista franca e descontraída, falaram-nos do intenso último ano em que, sem esperar, transformaram o que poderia ter sido um flop na Canção do Ano, segundo os prémios Play, e de como, indiferentes a críticas, tornaram o Alentejo ainda maior. 

Escrevemos uma segunda canção -  por acharmos que a "Pôr do Sol" poderia não resultar

Os Vizinhos têm nas redes sociais o projeto criar uma banda desde o dia 0. Começo então por perguntar-vos, qual foi mesmo o dia zero da vossa banda?

David Mendonça: O dia 1 de setembro de 2024.

Francisco Cartaxo: Foi quando escrevemos a "Pôr do Sol", num jantar. Nós os quatro e o João Direitinho. Foi lá também que se decidiu qual seria o nome da banda e que começamos a pensar no que realmente iríamos fazer em termos de conteúdo. O dia 1 de setembro de 2024 foi quando escrevemos a música que mudou as nossas vidas. Foi o início de tudo.

Mas quando é que decidiram que iam juntar-se os quatro para formar uma banda?

David Mendonça: Foi quando saímos dos SeisTetos e decidimos: não vamos estar parados e vamos criar uma banda. Em julho de 2024.

Para quem não vos conhece, como é que vocês se juntaram? Como nasceu este grupo de quatro amigos?

Francisco Cartaxo: Começou tudo no grupo acadêmico SeisTetos na Universidade de Évora. Cada um com o seu curso. Alguns já se conheciam, o Tomás é meu irmão, mas foi lá que nós os quatro nos juntamos para começar a tocar, a compor, a escrever e tudo mais. E, às vezes, para uns copos entre amigos, jantares... percebemos que os quatro dentro do grupo tínhamos mais conexão. Entretanto, ficamos na direção do grupo acadêmico, fizemos parte juntamente com os ÁTOA da [canção] "Romance de Balcão" e da "Ritinha".

Decidimos depois passar a pasta aos mais novos e criar uma banda. Não queríamos ficar parados e tínhamos de fazer os Vizinhos.

Vamos então recuar a esse dia em que fizeram a "Pôr do Sol". Perceberam logo que este tema poderia ser um sucesso?

Tomás Cartaxo: Nunca. Para sermos sinceros, nós até escrevemos uma segunda canção -  por acharmos que a "Pôr do Sol" poderia não resultar. Foi mesmo a primeira canção, só para experimentar e ver como é que o público reagia e pelos vistos foi na muche. 

Como é que foi essa noite em que nasceu esta canção que acabou por ditar o início dos Vizinhos?

Miguel Brites: Foi num jantar boémio. Estávamos na Quinta da Moura - que é a casa do Chico e do Tomás - a jantar e de repente começamos a escrever a música com o João Direitinho, o David nem estava lá, ligamos-lhe à pressa para ir meter um acordeãozinho e compor connosco. No outro dia de manhã, acordamos com um dictafone, com uma versão mais em bruto do que é hoje a "Pôr do Sol".

Abrimos uma porta que estava um bocadinho fechada para a música portuguesa

Por essa altura já tinham decidido que seriam os Vizinhos?

Miguel Brites: Foi exatamente nesse jantar e nesse dia que decidimos.

E porquê este nome?

Miguel Brites: O João Direitinho, que é o nosso manager, sugeriu isso. Estávamos lá na quinta e estava a chegar um vizinho ao pé de casa e o João levanta-se e diz: vocês são os Vizinhos. Ficamos muito espantados, olhamos para os outros um bocadinho reticentes. Primeiro estranhamos, mas depois entranhou-se. 

Escolhido o nome da banda e com a primeira música lançada, seguiu-se um sucesso estrondoso. Como foi lidar com a enorme popularidade que a "Pôr do Sol" conquistou?

David Mendonça: Não só a "Pôr do Sol", mas a "Pobre Ex-Namorado" e a "Casar É pra Esquecer", todas as músicas têm sido abraçadas pelo público da mesma forma. A "Pôr do Sol" é sempre especial, foi a primeira e juntou o que temos hoje. Nós pensávamos que iria ser um flop, pensávamos que iria ser uma música como as outras, mas acabou a unir gerações. 

Acho que abrimos aqui uma porta que estava um bocadinho fechada para a música portuguesa. Ouvia-se muito música estrangeira e coisas muito específicas, voltou outra vez a ouvir-se música portuguesa nas rádios com fartura. Todas as músicas que foram feitas ao longo do último ano são muito boas, Plutónio, Napa... É tudo história, é um ano histórico para a música portuguesa e acho que marcou uma geração.

Como surgiu a ideia de criarem a estratégia de mostrarem nas redes sociais o início da vossa banda desde o dia zero?

Tomás Cartaxo: Estávamos num sítio onde costumamos ir muito em Évora, o Clube Bilhar Eborense. Estávamos todos sentados à volta da mesa e começamos a falar no projeto. Já andava a ver muitos negócios, na internet, a aparecerem a começar a sua marca do zero. Lembrei-me, porque não, numa maneira de chegar às pessoas, acho que nunca ninguém fez: dia um a começar uma banda do zero... e o João Direitinho acrescentou, até encher o coliseu. Pensamos logo que era uma excelente ideia. Foi só começar a gravar e publicar. 

E agora os coliseus estão quase a chegar.

Francisco Cartaxo: E já estão quase esgotados! Dia 21 de novembro no Porto e dia 28 de novembro em Lisboa, em ambos só já restam alguns lugares na plateia em pé. Ou seja, estão quase com 80% da capacidade total. Está quase esgotado e ainda não temos nada preparado, é verdade.

Um certo nervosismo acredito que já tenham. 

Francisco Cartaxo: Desde a primeira reunião em que a nossa manager disse que iria falar com os coliseus para reservar a sala, cada vez que nos lembramos disso aparece aquele nervosismo. É uma sala mesmo especial, são as salas mais emblemáticas do país, tanto no Porto como em Lisboa. Esperamos que corra tudo às mil maravilhas, vamos fazer para isso e prometemos um espetáculo incrível.

Tivemos dificuldades em chegar ao concerto com a quantidade de trânsito, a cidade parou

Os coliseus certamente vão ser especiais, mas vocês tiveram até aqui um ano intenso de muitos concertos. Quais foram os espetáculos mais especiais?

David Mendonça: Festas do Mar, em Cascais, Crato, Évora, Ilha Terceira e Aliados, no Porto.

Não estavam è espera de ser recebidos da forma como foram nesses locais?

David Mendonça: Nos Aliados estavam 30 mil pessoas, nos Açores estavam 5 mil mas esses 5 mil pareciam 30 mil. Fomos recebidos de uma maneira incrível. Em Évora tivemos dificuldades em chegar ao concerto com a quantidade de trânsito, a cidade parou. Chegámos 5 minutos antes.

E como foi ver a vossa cidade parar para vos ver?

Francisco Cartaxo: Foi o nosso segundo concerto em Évora. Já tínhamos tido um primeiro, uma coisa pequena. A produção estava à espera de no máximo 300/ 400 pessoas. Aquilo foi uma enchente. Havia pessoas na porta e tiveram de chamar a GNR. Algumas pessoas tiveram de ir embora porque não conseguiram ouvir o espetáculo. A câmara prometeu que ia marcar outro concerto para compensar esse, e marcou nos Jardins de Évora. Aí pudemos ver realmente a dimensão e o quanto a nossa cidade estava a apoiar os Vizinhos. Foi realmente muito especial. 

Agora aconteceu novamente com o lançamento do álbum. A primeira paragem foi em Évora e estava completamente cheio, dos mais velhos aos mais novos. Foi incrível ter a nossa cidade a apoiar-nos.

Os Vizinhos viajaram de autocarro de Évora até Lisboa, com várias paragens e pequenos concertos, para promoverem o lançamento do primeiro álbum. Como é que correu esta "uma hora e tal de caminho até Lisboa"?

Miguel Brites: Uma hora e tal é o que diz a nossa música, mas foram mais de 10 horas até chegarmos à capital. Tivemos alguns percalços pelo caminho, mas o que importa é que nas paragens que tínhamos previstas estava muita gente para nos ver. Quando chegamos ao Campo Pequeno, outra vez, uma multidão de gente. 

"Só Se Estraga Uma Casa" é o nome do álbum. De onde surge este nome?

David Mendonça: É o caos bonito, o caos que demonstra o que os Vizinhos fizeram ao longo deste ano. Quando nós nos juntamos os quatro, só se estraga uma casa e acontecem sempre coisas bonitas, acontece sempre alguma coisa de incrível. Em vez de ser "Só Se Estraga Um Álbum", que era para ser assim, mas como era muito agressivo, decidimos utilizar uma expressão que as pessoas utilizassem no dia a dia e com a qual se identificassem. 

O álbum foi lançado em 8 de maio, até ao momento qual o feedback que têm vindo a receber por parte do público?

Francisco Cartaxo: Melhor era impossível. O impacto do evento de lançamento foi incrível, teve impacto nas pessoas e na música portuguesa. 

Antes ninguém ligava ao Cante Alentejano, ninguém ligava ao Alentejo

Vocês conseguem encontrar uma explicação para este fenómeno que aconteceu convosco, este boom?

Tomás Cartaxo: Pensando bem, acho que temos explicação. As redes sociais desde o início fizeram parte do nosso projeto. É onde investimos, diria, 50%.

David Mendonça: Às vezes, deixamos de ensaiar para gravar vídeos, mas hoje em dia é a realidade com que se vive a música. Tem de se mostrar muito nas redes sociais, é a maneira de chegar às pessoas. Também tivemos, claramente, muita sorte. As pessoas aderiram à canção. Aderiram à frase "se achas Lisboa grande, o Alentejo ainda é maior". Foi o conjunto perfeito.

Miguel Brites: Ao criarmos esta série do dia 0, conseguimos credibilidade e criar um público ainda antes sequer de lançar a primeira música. 

Acham que os Vizinhos acabam também por beneficiar do facto de o Cante Alentejano estar em voga e as sonoridades ligadas à região estarem de alguma forma na moda?

David Mendonça: Não estava na moda, ficou na moda. O Buba Espinho abriu portas, foi o maior impulsionador do Alentejo. Antes ninguém ligava ao Cante Alentejano, ninguém ligava ao Alentejo. Era uma situação um bocado difícil também para os artistas de lá. O Buba lutou durante anos para que esta região fosse notada no panorama da música portuguesa. A partir do momento em que o Buba faz a música com os D.A.M.A., aí virou moda. Não era vulgar ver-se um alentejano com música pop e foi a junção perfeita Depois surgem mais 3, 4, 5 músicas -  entra o Luís Trigacheiro, os ÁTOA, Bandidos do Cante e aí, então, surgem os Vizinhos. Daí surge o pop Alentejano.

Acho que agora é que está na moda, porque antes era muito difícil. E isto também é difícil de gerir, porque há muitos comentários negativos. Agora está na moda, mas acho que é merecido. Acho que foi bom para a música portuguesa aparecerem esse tipo de músicas, o Alentejo, a música cigana, o Vira do Minho, porque as tradições acabavam por estar esquecidas.

Ouvimos a "Tu Na Tua" e achamos que não era aquilo que precisávamos

No fundo, os números que vocês têm conseguido são a resposta às críticas? 

David Mendonça: Às vezes nós brincamos com esta situação, mas houve aqui um aumento dos singles de ouro e platina. Antigamente, as streams eram muito menos e era muito mais fácil ter singles de ouro e platina. 

Analisamos os dados desde o ano passado. A música do ano em 2025 foi a "Garota", do Maninho e da Marisa Liz, que no YouTube conta com 6 milhões de visualizações. Nós, no YouTube, temos já 15 milhões este ano. Houve um aumento significativo do consumo de música portuguesa, que é super importante. Isso motiva-nos a ser mais ambiciosos, a querer fazer mais e melhor para que as pessoas ouçam cada vez mais música portuguesa. 

Uma das canções de maior sucesso dos últimos tempos é a "Tu Na Tua", dos ÁTOA, Buba Espinho e Luís Trigacheiro. É verdade que este tema era para ser dos Vizinhos?

David Mendonça: Era para ser nossa, sim. 

Contem-me tudo...

David Mendonça: Quando ouvimos essa música, não adoramos logo. Temos esse problema, estamos sempre à procura da música perfeita, somos muito exigentes. Ouvimos a "Tu Na Tua" e achamos que não era aquilo que precisávamos, dissemos ao João Direitinho: fica com ela. 

Já aconteceu outras vezes. Nós não escolhemos as canções, nós sentimos. A música é para se sentir. Quando nós sentimos, arriscamos. Não era para ser para nós. E também ficamos felizes pelo sucesso dos nossos amigos.

Despedimo-nos, congelamos matrículas e hoje estamos aqui

E o que é que ainda está para ser?

David Mendonça: Tanta coisa que ainda nem sabemos como vamos começar. Já temos algumas canções guardadas e escritas. Já temos o segundo álbum escrito. Estamos a pensar em várias colaborações. Em setembro ou outubro, haverá uma colaboração lá para aquelas zonas assim mais quentinhas. Precisamos de uma música quentinha quando estamos no inverno.

Francisco Cartaxo: Agora vamos deixar as pessoas ouvirem o álbum, consumir estas músicas que também são muito especiais para nós. Depois vamos estar focados nos coliseus. 

Isto começou tudo muito depressa para vocês, têm receio de que possa acabar também com a mesma velocidade?

David Mendonça: Não, não temos medo que acabe. Nunca mais vai acabar. A "Pôr do Sol" veio para ficar e os Vizinhos também. Queremos fazer parte disto durante 30 ou 40 anos. Nada vai acabar porque vamos continuar a trabalhar para dar o melhor às pessoas. Tudo o que fazemos é com muito amor, com muito carinho e muito profissionalismo. 

Francisco Cartaxo: Nós os quatro abdicamos de muita coisa para arriscarmos no projeto. Tínhamos os nossos trabalhos, uns estavam a estudar. Quando a "Pôr do Sol" começou a tocar em todo o lado, despedimo-nos, congelamos matrículas e hoje estamos aqui. 

Trabalhar entre amigos é mais difícil ou mais fácil?

David Mendonça: Fácil, super fácil.

Tomás Cartaxo: Nós temos uma conexão muito boa. Nós os quatro sempre nos carregamos uns aos outros e sempre estivemos lá quando era preciso. 

Para terminar, desafio-vos a recuarem àquele jantar em que foi feito o "Pôr do Sol". Conseguiam na altura imaginar tudo aquilo que estão a viver agora?

David Mendonça: Não fazíamos nada diferente. As nossas decisões foram todas tomadas com consciência, a pensar no melhor para a banda. Tivemos um caminho tão rápido, às vezes nem temos tempo de processar. É tanta informação, tantos palcos, tanta coisa que está a acontecer. Quando nós pararmos depois dos coliseus, aí é que vamos pensar no futuro da banda. Vamos todos parar e pensar: já viram o que é que nós fizemos desde aquele dia? Acho que será aí, porque agora estamos a todo gás e não vamos parar - todos os dias trabalhamos para dar o melhor às pessoas. Mas não fazíamos nada diferente desde esse dia.