"Reconciliação": Autora Das Memórias De Juan Carlos Revela O Lado Humano Do Rei Emérito

 



Mais de dez anos depois de abdicar do trono que foi seu durante quase quatro décadas, Juan Carlos decidiu não seguir o conselho do seu pai e escrever as suas memórias. "Os reis não se confessam", ensinou-lhe Don Juan de Borbón, o Conde de Barcelona, mas o monarca escolheu desobedecer e contar  - com muitos detalhes - a sua longa vida de 88 anos. 

 

Entre escândalos - financeiros, pessoais, familiares - e tragédias, Juan Carlos sentiu que não queria mais que "roubassem a sua história" e contou-a em primeira mão, com a ajuda imprescindível de Laurence Debray, uma jornalista francesa que se mudou durante dois anos para os Emirados Árabes Unidos para, em conjunto, escreverem "Reconciliação".

O livro é uma busca pelo perdão a um país ao qual tanto deu e do qual sente tanta falta, todos os dias e todas as noites. Sente-se "abandonado e resignado" mas "mantém-se de pé". 

O Fama ao Minuto falou com Laurence Debray que nos contou como foi escrever esta obra inédita cheia de confissões inesperadas do monarca, mostrando uma "faceta privada" de uma vida sempre "tão pública".

Em "Reconciliação", Juan Carlos fala abertamente sobre a vida vida solitária em Abu Dhabi, onde vive desde 2020, sobre a sua juventude, sobre as suas paixões, não esquecendo o trágico episódio da morte do seu irmão mais novo, Alfonso.

O escândalo financeiro de que foi alvo (apesar de nada lhe ter sido imputado), o caso extraconjugal com Corinna Larsen e ainda a sua boa relação com a rainha Isabel II, nada fica de fora ao longo de 500 páginas. 

 

É um animal político que tem uma autoridade natural e que não tem medo do risco. Foi isso que mais me marcou: ele não tem consciência do risco, avança na vida

O que motivou Laurence a aceitar colaborar e escrever outro livro sobre Juan Carlos? Percebeu que o rei emérito precisava finalmente de contar a sua versão da história?
 
O rei [emérito] depositou confiança em mim, quando eu nem pensava ser capaz disso. Já tinha uma longa relação de confiança com ele: tinha escrito dois livros sobre ele e tinha-lhe feito uma entrevista longa para um documentário pouco antes da sua abdicação. Ele estava muito decidido a dar a sua versão dos factos, a dirigir-se aos jovens. Aceitei ajudá-lo. Foi uma honra fazê-lo.

Como surgiu a ideia de escrever este livro? E quanto tempo durou o processo? Como foi a sua experiência em Abu Dhabi?
 
Foi o xeque Mohammed bin Zayed, o chefe de Estado dos Emirados Árabes Unidos, que lhe sugeriu escrever as suas memórias quando percebeu que iria ficar nos Emirados por mais tempo do que o previsto. Ele refletiu muito e, quando o vi, estava muito decidido a fazê-lo. Instalei-me em Abu Dhabi durante dois anos para escrever ao seu lado e poder trabalhar todos os dias com ele.
 
Porquê o título "Reconciliação"?

Porque o rei reconciliou os espanhóis após a guerra civil e organizou a democracia; reconciliou os espanhóis com a sua história. Este termo resume bem o seu reinado. 

 
Notícias ao Minuto
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Como decorreu o processo de escrita para si? Sendo uma conhecedora da vida do rei, ficou surpreendida com alguns detalhes do seu percurso? Se sim, que acontecimento ou memória a surpreendeu mais?

Trabalhámos dois anos lado a lado. Depois tivemos de cortar algumas passagens porque o livro era muito longo e havia repetições. Evidentemente, eu tinha imaginado um rei mais maquiavélico do que ele revelou ser na realidade. É um animal político que tem uma autoridade natural e que não tem medo do risco. Foi isso que mais me marcou: ele não tem consciência do risco, avança na vida.

Acha que o trabalho político de um rei tão importante e influente em Espanha foi "apagado" pelos escândalos? Afinal, Juan Carlos foi um dos artífices da democracia no país.

Acho que hoje em dia se dá mais destaque à vida privada em detrimento da vida oficial. Está na moda. Alguns políticos aproveitam-se disso para enfraquecer a coroa. 
 
Acha que a grande tristeza de Juan Carlos, aos 88 anos, é a solidão que sente depois de viver há muito tempo nos Emirados Árabes Unidos sem data de regresso?
 
Não é um homem amargo ou nostálgico. Tem uma grande força mental. Aceita o seu destino para preservar a coroa e o reinado do seu filho.

A Laurence ficou comovida com algumas passagens das memórias de Juan Carlos? Lembro-me, por exemplo, do relato do primeiro Natal que o rei passou longe da sua família, ou ainda das memórias de infância em que se sentia sozinho nos internatos.
 
Ele não teve uma vida fácil, mesmo que não goste de o admitir. A solidão tem sido constante desde a sua infância e ainda mais hoje em Abu Dhabi.

Acha que, com tudo o que lhe aconteceu, Juan Carlos é um homem mais amargo ou mais resignado?
 
Ele adapta-se a todas as circunstâncias que o destino lhe apresenta sem se queixar. Ele não sabe o que o futuro lhe reserva.

Juan Carlos também abordou um tema sobre o qual nunca tinha falado em público: a morte do seu irmão mais novo, Alfonso. Considerou que este assunto não podia ser deixado de lado num livro de memórias, tanto mais que o rei "nunca recuperou desta tragédia"?
 
Desde o início do nosso trabalho, o rei sabia que era necessário abordar todos os temas, tanto os mais alegres como os mais tristes, e também os mais embaraçosos.

Juan Carlos e Sofia enfrentaram muitas tempestades juntos. Ele admira-a como esposa, mãe e grande rainha

Outro tema abordado no livro, e um dos mais controversos, foi o facto de o rei emérito ter admitido ter tido relações extraconjugais. Não dava para contornar num livro de memórias algo que foi sempre tão falado por Espanha?

Juan Carlos abordou o assunto de forma muito direta e sincera. Não entrou em pormenores porque se trata de um livro político, onde aborda uma grande história.  Não tenho a certeza de que, em França ou nos outros países onde será publicado, os nomes específicos das pessoas envolvidas sejam importantes. Elas não entrarão para a história.

No que diz respeito ao escândalo do dinheiro que recebeu, que foi o mais grave para a imagem da monarquia e que culminou no seu autoexílio, isso tudo é aprofundado no livro. São mencionados montantes específicos e revelados detalhes do que aconteceu. Será que Juan Carlos considerou que devia explicar tudo em pormenor e fazer comparações para que, de uma forma ou de outra, as pessoas compreendessem as suas motivações?

Acho que ele queria sobretudo esclarecer este assunto, porque havia tantas notícias falsas sobre o tema que ele precisava de dar a sua versão dos factos.

No livro, Juan Carlos refere que a sua família não fala muito sobre sentimentos, sobre coisas mais profundas, como em tantas outras famílias. Acha que é importante para a herdeira, Leonor, ter uma outra visão do seu avô e conhecer a sua história? Afinal, Juan Carlos é o grande responsável pela monarquia espanhola tal como a conhecemos hoje.

Ele é o pai da Constituição. Talvez seja útil para a herdeira ler as suas memórias, para que ela saiba em primeira mão a quem deve o trono.

Dedicar um capítulo à rainha Sofia, Sofi, como ele sempre a chamou, dirigindo-lhe muitos elogios, foi de alguma forma um pedido de desculpas público?

Isso é uma prova de um laço genuíno que remonta à juventude deles. Eles enfrentaram muitas tempestades juntos. Ele admira-a como esposa, mãe e grande rainha.

Acha que Juan Carlos guarda alguma amargura porque a sua relação com Felipe e as suas filhas não é tão próxima como a que mantém com a infanta Elena e Cristina e os respetivos filhos? Ou a sua noção de que a posição dos herdeiros é diferente consegue contornar a mágoa de pai? 

Ele compreende que o seu filho aja, em primeiro lugar, como rei e que coloque os interesses da coroa acima de tudo. Mantém uma relação muito próxima com as suas filhas, que não carregam diretamente o peso da coroa.

No final do processo de escrita do livro, a sua opinião sobre Juan Carlos mudou?

Tenho a impressão de ter vislumbrado o homem por trás da carapaça de rei. Sinto agora mais empatia por ele.
 
Juan Carlos está satisfeito com o resultado final do livro e com as críticas?
 
Juan Carlos está muito feliz pelo facto de o livro ter sido tão bem recebido em França, por ter batido recordes de vendas em Espanha e espera que o livro seja igualmente bem recebido em Portugal, um país de que ele gosta muito e que considera a sua segunda pátria.

Como está Juan Carlos hoje, como decorre o seu dia a dia?

É um militar, tem uma vida muito organizada e não se deixa levar pela preguiça apesar da idade. Faz ginástica todos os dias para se manter em forma, apesar dos seus problemas de mobilidade, e come seguindo os horários espanhóis.
 
Juan Carlos preocupa-se com o trabalho do seu filho, Felipe VI, e com o contexto político atual?

Ele acompanha a atualidade de forma intensa, lê toda a imprensa. Está muito orgulhoso do seu filho, pois sabe que ele reina num contexto difícil.

O que impede Juan Carlos de regressar definitivamente ao seu país?

Por enquanto, não pode dormir no Palácio da Zarzuela. Não gosta de ir para um hotel em Madrid e sentir-se como um turista. 
 
Juan Carlos sente que vai ficar em Abu Dhabi até ao fim dos seus dias?

Ele vive um dia de cada vez. Está muito bem instalado em Abu Dhabi, onde recebe excelentes cuidados médicos. Ele não sabe o que o futuro lhe reserva.