"Rabo de Peixe": O Adeus a uma Série que Mudou a Ficção Portuguesa



Após três temporadas, a série original portuguesa “Rabo de Peixe” chegou ao fim no passado dia 10 de abril, uma oportunidade que serviu para - em jeito de balanço - conversarmos com alguns dos responsáveis por esta série da Netflix.


Depois de termos conversado com o grupo de protagonistas e com o criador da série Augusto Fraga, o Notícias ao Minuto teve também a possibilidade de entrevistar Maria João Bastos, que interpreta a inspetora da Polícia Judiciária (PJ) Paula, e ainda Ângelo Rodrigues, que se estreia nesta última temporada no papel de um jornalista chamado Pedro.

Além do desenvolvimento da personagem da inspetora da PJ, os dois atores explicaram também as dificuldades que foram sentidas pelo facto de as duas últimas temporadas de “Rabo de Peixe” terem sido filmadas em simultâneo.

Pode ler abaixo a entrevista a Maria João Bastos e a Ângelo Rodrigues na íntegra.

Notícias ao MinutoCarlinhos (André Leitão), Sílvia (Helena Caldeira), Eduardo (José Condessa), Rafael (Rodrigo Tomás) e Pedro (Ângelo Rodrigues) © Netflix

 

Nas duas primeiras temporadas, pareceu-me que há pouca variação na forma como opera a personagem da Maria. Na terceira temporada, temos uma versão muito mais “pesada”. Como foi desenvolver este lado da personagem numa fase mais tardia, por assim dizer?

Maria João Bastos (MJB): Acho que, no fundo, ela tem um arco ao longo das três temporadas - uma evolução. Vê-se na primeira temporada uma mulher mais rígida, mais fria, mais dura, a querer justiça e contra o sistema quando percebe que o sistema é corrupto. Mas excelente profissional. Uma mulher no mundo de homens que criou nela aquela carapaça dura para sobreviver.

Depois, na segunda temporada, ela amolece um pouco. A filha aparece de surpresa nos Açores e ela é obrigada a isso, ainda que obcecada pelo trabalho e com as mesmas características da sua dureza e da sua frieza. Há ali uma pequena abertura na relação com a filha que acho que a surpreende até a ela própria – como olha para a filha e para a maternidade de outra forma. De repente, quando alguma coisa está ali a mudar dentro dela no final da segunda temporada, a filha desaparece.

Na terceira temporada, ela já está mergulhada num lugar completamente diferente, numa enorme vulnerabilidade.

Parece uma personagem completamente diferente, aliás.

MJB: Sim. No fundo, ela tem características que se mantêm traços da força dela. A coragem, a obstinação, a obsessão... Agora está focada não na parte profissional, mas sim na sobrevivência à sua própria dor de ter a filha desaparecida, de não saber onde é que a filha está, de gerir esse lado humano - vulnerável e frágil - que ela está a enfrentar. Ainda assim, ela mantém-se à tona e continua com a força de querer ir atrás de justiça, de vingança e de não desistir. 

Mas é óbvio que há uma nova personagem, mas quem não muda perante uma tamanha dor? Talvez a maior dor do mundo, que é a dor do desaparecimento de um filho e de não saber onde é que está.

Para ela, uma polícia que controlava tudo, que tinha coragem para tudo e que enfrentava tudo, de repente vê-se completamente exposta à sua própria dor e vulnerabilidade de não controlar nada. Isso é interessante na personagem. Essa diversidade que a põe num lugar em que ela nunca tinha estado.

Notícias ao MinutoPedro (Ângelo Rodrigues) © Netflix

 

Teve também como parceiro de cena o Ângelo enquanto Pedro...

MJB: Que acho que é um contraponto muito interessante na história da inspetora. Porque ela vive este momento de depressão profunda. Ela está no seu mundo obsessivo, mas acho que ela ainda sobrevive porque tem esta boia de salvação que é o Pedro e é gira esta relação: de como alguém que está ao lado de uma pessoa assim consegue estar ali presente e tentar ajudar.
Esta terceira temporada acerta em cheio porque conseguimos entrar emocionalmente na cabeça da inspetora e o lado do Pedro é tentar levá-la a um bom porto antes que alguma tragédia aconteça
Acho que a subtileza da personagem do Pedro é muito bonita porque, ao mesmo tempo em que entende o momento dela, está sempre a tentar resgatá-la e a salvá-la. Concorda? 

Ângelo Rodrigues (AR): Absolutamente. Aproveitei enquanto estavas a falar para refletir também sobre coisas a respeito das quais não tinha refletido ainda.

Disseste que só tinhas visto um lado da inspetora e que agora parecia uma personagem diferente. Eu estava a pensar: geralmente não é isso que acontece a partir do momento em que saímos de casa? Todos nós somos uma coisa para as pessoas, assumimos a nossa persona social. Mas e se houvesse uma câmara, em casa, a registar quando chegas a casa? A registar a tua essência.

Pegando neste exemplo, só conhecemos o lado profissional e obstinado da inspetora, mas de repente temos uma câmara em casa para descobrir as nuances e encontrar essa vulnerabilidade, que é o que nos une a todos. Nós somos ensinados a parecermos os mais fortes possível, somos impenetráveis. Mas, no fundo, o que nos une é a nossa condição humana e a fragilidade dessa nossa condição.

Esta terceira temporada acerta em cheio porque conseguimos entrar emocionalmente na cabeça da inspetora e o lado do Pedro é tentar levá-la a um bom porto antes que alguma tragédia aconteça. Ele cuida, ele ouve, ele é esse porto seguro de que a Paula precisa.

A personagem do Pedro só é introduzida esta temporada...

AR: Ele estava lá, só que estava em casa [risos]. 

A relação das vossas personagens começa fora do ecrã, ainda que imagine que ao longo das vossas carreiras já tenham trabalhado algumas vezes juntos...

MJB: Não!

AR: É a primeira vez.

Notícias ao MinutoEduardo (José Condessa) e Paula (Maria João Bastos) © Netflix

 

Mais reforça à minha pergunta, então! O Ângelo chega numa altura em que já está um grupo formado de elenco e a relação das vossas personagens tem de começar, mas no ecrã tem de continuar, porque começou fora do ecrã.

AR: Sim, não começa do ponto zero, ou seja, já é uma relação instalada. 

Não tivemos muito tempo porque já estávamos a filmar a segunda temporada e foi mesmo de seguida, não houve paragem

Exato, porque são três anos que passam entre a segunda e a terceira temporadas. Enquanto atores, tiveram tempo de desenvolver essa relação? 

AR: Não.

MJB: Infelizmente, não tivemos tempo.

AR: Sabes aquelas passadeiras que existem no ginásio, onde a pessoa corre e não sai do lugar? Se tu colocares a velocidade lá em cima, fica mesmo muito, muito rápida. Essa é a metáfora de como foi o meu processo de entrar.

De repente, tinha de entrar para uma passadeira que estava no seu ritmo e tentar não cair [risos].

MJB: Não tivemos muito tempo porque já estávamos a filmar a segunda temporada e foi mesmo de seguida, não houve paragem. O Ângelo entrou mesmo a meio do processo para a terceira temporada. Conversámos ali um bocado nos primeiros dias. Mas eu estava nos Açores, ele estava em Lisboa… Não estávamos no mesmo sítio. 

AR: Sim, havia ali uma dificuldade na comunicação.

MJB: Eu estava sempre a filmar, ainda estava na segunda temporada, ainda não tinha entrado na terceira…

AR: Resumindo, foi uma confiança cega no trabalho de cada um, no processo de cada um. Deu certo, felizmente.

MJB: Acho que funcionou muito bem. É muito credível a relação deles. É interessante porque, apesar de tu não teres cenas dos dois juntos, consegues ver a intimidade e a complexidade do casal. Isso é giro. 

Quando um filho está desaparecido ou quando morre alguém, as pessoas isolam-se muito e, portanto, o que é que isso faz nas relações? Põe uma barreira no meio do casal e é giro perceber como é que o casal gere essa situação e isso acho que está lá. Uma vida em conjunto.

Intimidade também é confiança e, naturalmente, as personagens mostram isso… Que confiam um no outro.

AR: É interessante essa construção de um casal que já namorou algum tempo, onde já houve intimidade física e, pelo que dá para ver, agora já não existe. A Paula provavelmente arrumou esse lado emocional. Está bem escondido - pelo menos em relação ao Pedro - porque ela condensa todas as forças que tem para o seu objetivo, que é encontrar a filha. Não deixa de amar o Pedro, mas talvez se tenha esquecido disso e o Pedro, como consegue ver o que é que está a acontecer, está com medo de perder a mulher que ama. Isso é triste. 

MJB: É muito triste!

Notícias ao MinutoCristina (Vitória Guerra) © Netflix

 

Sobre a personagem do Pedro, sendo um jornalista que aspetos da profissão é que o Ângelo achou que seriam importantes realçar na personagem? 

AR: A verdade jornalística [risos]! Nos tempos que vivemos, no mundo dominado pelas fake news em que é muito difícil percebermos se algo é verdadeiro ou falso, acho super atual. Hoje em dia, temos de fazer uma curadoria das coisas que nós gostamos de ler e de ver e perceber se as fontes são fidedignas ou não. Há certos meios de comunicação em que eu confio mais.

Claro que é uma história de há duas décadas, mas o Pedro vai à base do que é comunicar jornalismo. Comunicar a verdade dos factos e não ser sensacionalista. 

Ambos tiveram a oportunidade de filmar nos Açores, que é um dos sítios mais impressionantes no que diz respeito a beleza natural. Tal como falei anteriormente com o Augusto [Fraga], também mergulharam na cultura açoriana. Em que outros sítios de Portugal ou fora é que gostariam de passar pela mesma experiência?

MJB: Isso é uma coisa fantástica que nós temos na nossa profissão, que nos está sempre a levar, não só para diferentes universos das personagens, mas também para diferentes locais. Vai-se conhecendo o mundo e também Portugal.

Acabei de fazer um filme em Ponte de Lima, que é lindíssimo. É tudo bonito. Portugal é todo bonito [risos]. Mas Ponte de Lima foi um local lindíssimo para filmar. Temos a oportunidade de conhecer locais diferentes de Portugal. Isto é um exemplo, podia ser outra localidade, porque temos coisas lindíssimas.

Ter a oportunidade de filmar nos Açores, nomeadamente em São Miguel e Rabo de Peixe, foi muito giro. Ajudou também a série, como é óbvio. Uma vez que retratávamos aquela realidade, foi importante conhecermos um pouco de todos os aspetos da cultura deles. Foi muito giro.

E fora do país, há algum sítio fora do país onde a Maria, pessoalmente, gostasse de filmar?

MJB: Não sei...

AR: Alarga os teus horizontes!

MJB: Acabei de filmar na Islândia, que é maravilhoso. 

AR: E queres melhor?! Deixas a fasquia mesmo alta.

MJB: Pois é, pois é! 

A resposta do Ângelo terá de ser mais ambiciosa...

AR: O que é que está acima disto? Olha, nós sabemos que a Artemis II foi à Lua. Acho que dentro de 10 anos estaremos a fazer ficção lá. Portanto, aponto para a Lua. Já tem luz natural [risos]. Não precisamos de iluminação.

MJB: Mas há muitos sítios bonitos em Portugal por descobrir. Nós temos uma luz muito bonita no nosso país para filmar.

AR: E luzes diferentes consoante o lugar. Uma luz lisboeta... branca. Chegas ao Porto e tens uma mais luz cinzenta… mais poética. 

MJB: Olha, adorava filmar no Japão.

AR: Sim, sim, sim.

MJB: Nunca fui. Já que é para mandar para o Universo... Porque não?

AR: Porque não, o Japão? O Japão era uma boa. Vamos mandar para o Universo.