A Netflix partilhou na última sexta-feira, dia 10 de abril, a terceira e última temporada de “Rabo de Peixe”, colocando assim um final à série original portuguesa criada por Augusto Fraga.
No âmbito deste lançamento, a Netflix convidou o Notícias ao Minuto a estar presente numa série de entrevistas com alguns dos elementos do elenco e o próprio criador de “Rabo de Peixe”.
Estas entrevistas tiveram lugar um dia antes do lançamento desta terceira temporada, à qual tivemos acesso antecipado de forma a entrevistar os membros do elenco e o próprio Augusto Fraga.
A primeira delas foi a José Condessa (Eduardo), Helena Caldeira (Sílvia), André Leitão (Carlinhos) e a Rodrigo Tomás (Rafael) e pode lê-la na íntegra abaixo.
Rafael (Rodrigo Tomás), Sílvia (Helena Caldeira), Eduardo (José Condessa) e Carlinhos (André Leitão) © Netflix
Gostava de ter tido tempo para explorar um bocadinho mais os fantasmas que o Carlinhos tem em relação à forma como se relaciona com alguém
André Leitão (AL): Para mim, a pior de todas [as cenas] foi na segunda temporada. Uma cena em que estivemos oito horas de joelhos molhados, em permanente estado de alerta e de perigo. Portanto, essa cena foi altamente dolorosa, psicológica e fisicamente… Essa foi a pior. E mesmo não estando atados, porque a câmara não via, mas tínhamos de estar de joelhos. E, portanto, às vezes, desequilibrávamo-nos, e isso foi muito, muito, muito cansativo para mim, foi das piores.
Helena Caldeira (HC): Mas também foi muito divertido!
José Condessa (JC): Temos imensas sequências dessas. Estou agora a lembrar-me, na terceira temporada também temos uma em que estamos atados os três, quando ficamos lá naquele bunker… E é muito fixe. Essa sequência foi quase um dia inteiro. Tínhamos uma equipa que, quando conseguia, também nos ajudava e permitia-nos estar mais libertos: tirar algemas, pôr algemas, cordas ou o que fosse.
Não costumo ter muito pânico e fiquei assim um bocadinho stressado numa cena. Foi uma sequência que fiz durante vários dias, mas houve um dia em específico - não sei se pelo calor ou se pela situação de estarmos a andar de carro e eu achar que não tinha ninguém perto - quando estou com o saco atado na cabeça, a respirar muito lá dentro... essa foi uma que me deixou um bocadinho mais... Tinha as mãos realmente atadas, ou seja, eles mandavam-me lá para dentro atado e começámos a andar.
Sílvia (Helena Caldeira) e Rafael (Rodrigo Tomás) © Netflix
É normal que ao final de três temporadas tenham determinadas expectativas em relação ao destino das vossas personagens. Ficaram satisfeitos? Há algum lado das vossas personagens que gostassem de ter explorado um pouco mais? Por exemplo, o Rodrigo Tomás, poderia ter gostado que mostrassem mais cenas do Rafael enquanto jogador de futebol.
AL: Sim, gostava de ter tido tempo para explorar um bocadinho mais os fantasmas que o Carlinhos tem em relação à forma como se relaciona com alguém. Mesmo na primeira temporada, as cenas com o padre eram maiores, havia mais...
Mas, obviamente por força de várias circunstâncias, tudo tem sempre de ser mais encurtado. Tanto na segunda quanto na terceira temporadas, o padre está sempre lá, sempre presente. Há há ali um vazio que gostava que tivesse sido explorado.
HC: Acho que dava para fazer um “spin-off” com todas as personagens. Além de explorar mais a relação da Sílvia com o Eduardo e o Rafael - porque há muito mais para tirar daí e muita coisa ali que fica por dizer – gostaria de ter explorado mais a maternidade.
Se houvesse um spin-off, gostaria que se percebesse mais como é que é a Sílvia enquanto mãe, que se visse mais como é que é esta jovem mulher a educar uma criança naquele contexto.
JC: Obviamente, estamos todos muito felizes com este final. Acho que o que nos faz pensar nestes mundos é a qualidade da escrita desta série. Tem tanto sumo e tanto material. E nós vivemos esta história durante quase quatro anos... É inevitável sonhar com isso.
A própria ação salta três anos da segunda para a terceira temporada. Há o que não é contado. Há duas coisas também que eu percebo perfeitamente. O amor do Eduardo e da Sílvia, que é um amor proibido e que rapidamente acaba… E ainda bem, porque fomos ressuscitar uma das melhores personagens desta série [Rafael]. É extraordinário. porque não imaginaria uma segunda ou terceira temporada sem ele. Aliás, quando estava escrito, nós não queríamos acreditar….
Gostaria também de ter visto um bocadinho mais do dia a dia de Rabo de Peixe. Um bocadinho mais da pesca, mais daquilo em que tivemos a oportunidade de mergulhar. E a ação pede-nos outra coisa. Pede-nos outra velocidade.
Rodrigo Tomás (RT): Estou muito satisfeito com o percurso da personagem, com aquilo que foi enfatizado no guião. Não sinto falta de mais cenas a jogar à bola. Estou muito satisfeito.
Eduardo (José Condessa) e Rafael (Rodrigo Tomás) © Netflix
Nesta temporada até vemos o Rafael a encontrar o pai. É uma cena relativamente pequena, mas que conta muito daquela personagem...
HC: Tailândia!
AL: Acho que Portugal tem muita história…
HC: Japão!
AL: Acho que há muitos sítios em Portugal - continental e ilhas, obviamente - que podiam ser explorados porque há muita história... Nós temos muitas histórias. Temos mesmo muito material por onde pegar.
RT: As ilhas em África, São Tomé e Príncipe e Madagáscar, por exemplo.
Podem “manifestar” se quiserem!
JC: Até na Antártida eu adorava filmar.
HC: Por acaso, acho que essa está mesmo no fim da minha lista. Muito frio! Mas se me convidassem, let’s go.
JC: A experiência seria incrível.
Na sequência do que disseram de Portugal ter muitas histórias por explorar. Rabo de Peixe é uma dessas histórias e acabou por dar origem a esta série. Do vosso conhecimento, que outras histórias típicas é que gostariam de ver adaptadas para série?
JC: Não vou falar porque estou a desenvolver coisas… [risos] Há tantos acontecimentos históricos e até recentes. Há personagens extraordinárias em Portugal, histórias de amor…
RT: Tens o assassinato do Conde de Andeiro...
Mas há alguma que seja favorita da vossa parte?
JC: Não vou responder a isso [risos].
RT: Esta história de Rabo de Peixe é mesmo... Quando ouvi falar nisto quando era adolescente até pensei: “isto dava uma série”.
JC: Olha, manifestas-te! Mesmo, sem saber.
RT: Sim! Uma história numa das aldeias mais pobres da Europa onde chegaram milhões de euros em cocaína.
Rafael (Rodrigo Tomás), Eduardo (José Condessa), Sílvia (Helena Caldeira) e Carlinhos (André Leitão) © Netflix
Sinto mesmo que existe uma Helena atriz antes e depois de “Rabo de Peixe”
JC: Há uma grande nostalgia ao terminarmos este projeto, acho que da parte de todos os que fizeram parte dele. Nós infelizmente, ou felizmente, já o largámos há algum tempo. Mas é sempre interessante que ao longo destes quatro anos, cada vez que nos voltávamos a ver, que voltávamos a filmar, que líamos mais um episódio ou que vínhamos aqui nestes dias ter estas conversas, havia sempre, primeiro, uma felicidade muito verdadeira.
Desde quando o que que íamos começar a fazer era um segredo e era uma série que seria lançada a nível mundial, acima de tudo nós estávamos uns com os outros, a olhar olhos nos olhos, com o sacrifício diário do trabalho de texto e o trabalho físico em desenvolver as personagens, com toda a equipa, De repente, olhas e passaram não sei quantos anos e tu realmente estás feliz com o que entregaste.
Acho que este sentimento de dever cumprido é uma coisa muito difícil de igualar ou de superar e acima de tudo saberes que não vais voltar a este lugar que te fez feliz. Ou seja, é um luto que é necessário. É muito aquela síndrome do astronauta que se conta muitas vezes, que vais à Lua e quando voltas nada te parece tão belo.
Mas nós estamos cá e continuamos a querer fazer outras coisas.
HC: Vai haver coisas muito belas.
JC: Vai e espero que até melhores. Já dissemos várias vezes, mas vamos voltar a dizer, vai abrir portas para o que vem a seguir. Mas sei que daqui a 20 anos vou olhar para trás e vou continuar a dizer que “Rabo de Peixe” foi uma das coisas mais importantes da minha vida. Tenho a certeza absoluta.
AL: Não sei se foi uma aprendizagem ou se foi uma consciência que pessoalmente ganhei ao longo destas três temporadas de que às vezes as coisas que são mais importantes para nós estão muito mais perto de nós do que nós achamos. Ouvia isso como frase, mas ganhei consciência disso ao longo do processo. E revi-me enquanto André.
JC: Sabem o que é que acho? Nós, às vezes, como atores queremos umas personagens, sonhos ou projetos e, de repente, acho mesmo que são as personagens que nos escolhem. Às vezes, encontramos as pessoas certas naqueles projetos porque tínhamos de nos cruzar com elas. E isto é especial. É muito bonito.
HC: Aprendi muito como atriz. Como pessoa. Acho que estes quase quatro anos não só vieram trazer obviamente uma aprendizagem técnica - que eu não tinha até ao momento, porque a minha carreira estava maioritariamente no teatro - mas mesmo a nível pessoal.
O facto de lidarmos com muita gente o dia todo, de serem equipas grandes, cenas difíceis, a própria altura da vida… Não sei se é porque acabei de entrar nos 30 que estou nostálgica, mas sinto mesmo que existe uma Helena atriz antes e depois de “Rabo de Peixe”.

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