Luís Filipe Eusébio Recorda Percurso E Revela Que Nunca Pensou Ser Ator



"Lisbon Noir" é uma série policial portuguesa, de Artur Ribeiro, que nos traz a história inspirada no assassino em série Diogo Alves - que ficou marcado como o assassino do Aqueduto das Águas Livres. 


Este projeto estreou-se na passada segunda-feira, dia 13 de abril, na TVI e na Prime Video. É uma produção da See My Dreams, em parceria com a TVI, e conta no elenco com Pêpê Rapazote, Beatriz Godinho, Mina El Hammani, Cleo Diára, Teresa Tavares, Paulo Pires e Luís Filipe Eusébio. 

Notícias ao Minuto conversou com Luís Filipe Eusébio, que na série dá vida a Fernando. O ator partilhou alguns detalhes sobre a sua personagem e o processo de criação da mesma, recuou ao início da carreira e refletiu sobre o seu percurso, sem deixar de lado os próximos passos e desejos futuros.

Ao longo da sua carreira, de lembrar, Luís Filipe Eusébio já fez parte de vários projetos televisivos como "A Espia", "O Atentado" ou "3 Mulheres". 

Como descreve a sua personagem, Fernando, em "Lisbon Noir"?

O Fernando Bravo sofre de psicopatia genética - falta de empatia, impulsividade e insensibilidade ao medo. Nasceu com predisposição biológica/genética. Maus tratos, negligência, educação punitiva, exposição à violência "ativa" são fatores que podem exacerbar ou encaminhar uma pessoa que já tenha esta predisposição, tais como a regulação de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina.

No backstory da personagem ele experimentou comportamentos aditivos como o álcool, sexo e drogas, o que não resultou, e a determinado momento, na história, descobriremos que ele tem um momento em que toma a decisão racional de deixar de se limitar e cumprir-se: a forma de ele sentir prazer - e isto também está ligado ao ego e ao poder - é matar. É, portanto, uma máquina racional, fria, manipuladora, sem qualquer tipo de interesse em manter comportamentos que o permitiriam ser um psicopata funcional, como tantas pessoas que existem na nossa sociedade.

Como foi o processo de criação, que ferramentas usou nesse processo?

Foi um processo de criação altamente colaborativo com o autor e realizador Artur Ribeiro. Preparei as bases que senti necessárias para poder mergulhar na personagem com credibilidade: estudei sobre psicopatia, treinei fisicamente para ganhar massa muscular, treinei combate corpo a corpo, combate com armas de fogo e com facas. Estudei muito o texto. Fiz muitas perguntas.

Inspirei-me em documentários sobre psicopatas famosos, com particular interesse no "Night Stalker" (Richard Ramirez). Estudei a forma como Javier Bardem se preparou para o seu papel em "No Country for Old Men" - como interpretou um conceito de violência pura. Estudei a inspiração da voz de Anthony Hopkins em "Silence of the Lambs" - a voz do computador HAL em "2001: Odisseia no Espaço". E fui dirigido - e bem - pelo realizador, que procurou mostrar como as escolhas emocionais, de tom e de postura, partiam de um plano racional e não de forma espontânea, como acontece com as pessoas comuns.

Seria fácil cair num qualquer lugar de vitimização e de amargura - e mais perigoso. Fiz o meu caminho, encontrei pessoas incríveis que se tornaram minhas e eu delas

E o que difere esta série de outras?

É uma peça de autor, única, com um guião bem escrito pela arte do Artur Ribeiro, da Marta Pais Lopes e do Nuno Duarte, cativante, personagens complexas e humanas, momentos de tensão bem conseguidos, de ação, uma fotografia fantástica e uma banda sonora do melhor que já ouvi, pela mão do Maestro Nuno Corte Real, que a criou frame a frame.

Começou a dar os primeiros passos na representação no início dos anos 2000 e, na altura, não foi fácil. Hoje, olhando para essa fase, o que recorda?

Olho com carinho pelo que consegui aprender, com mais amor por mim e pelo meu percurso. Seria fácil cair num qualquer lugar de vitimização e de amargura - e mais perigoso. Fiz o meu caminho, encontrei pessoas incríveis que se tornaram minhas e eu delas. E estou aqui, em constante caminhada e mais consciente das distrações.

Em entrevistas anteriores já recordou, por exemplo, que passou por um período desafiador também em termos económicos... Que memórias permanecem?

Recordo-me tanto de episódios de muita humanidade e amor que tiveram para comigo, como de episódios de aventura, também de episódios de muita angústia, sofrimento e solidão - olhar para a frente e não ver nada. Sou parte de uma geração portuguesa altamente capaz e trabalhadora, que nasceu num país onde nos mandaram para fora e que continua a dar pouco espaço para a construção futura e para a esperança. A isso juntei a ausência de uma base familiar, o que foi sinónimo de situações difíceis e constantes.

Trouxe-me sentido de responsabilidade, mas também de desapego. Sentido de trabalho e lealdade, igualmente de aceitação. Trouxe-me muitas coisas boas - acima de tudo, muitas pessoas boas. Desde esse momento até ao momento em que escrevo estas palavras. E, sem dúvida, gratidão e não ter vergonha de pedir ajuda ou de saber que não sei, mas quero aprender.

Quis ser padre. Depois taxista. Mais tarde futebolista. Quis ser muitas coisas - nenhuma delas era ser eu

Representar não foi propriamente um sonho desde sempre, mas hoje não se vê noutra profissão?

Quis ser padre. Depois taxista. Mais tarde futebolista. Quis ser muitas coisas - nenhuma delas era ser eu. No teatro pediam-me inicialmente para ser eu, livre, e descobrir a partir daí. Faz todo o sentido. E, claro, não me vejo noutra profissão. Tenho procurado um equilíbrio porque, após a Covid - onde me apercebi que podemos trabalhar muito e construir muito para perdermos tudo num momento inexplicável -, moderei a minha obsessão pelo trabalho com um sentimento de necessidade de me cumprir em vida. E, de facto, sinto-me assim quando estou ao serviço do que me completa.

Como vê a evolução da sua carreira? Sente que, até à data, conseguiu chegar onde ambicionava?

Deixei de ambicionar tanto, até porque me levava a sonhar alto, e as palavras, quando se sonham, podem ser levadas de formas por vezes injustas. Ambiciono na mesma, mais em segredo - na maioria, coisas simples: uma casa, comida, um trabalho justo, servir algo maior do que o meu ego ou o dos outros. Hei de chegar quando deixar de caminhar. Até esse dia, tudo é percurso. Terminei "Lisbon Noir", já revi os episódios e estou desejoso de melhorar.

O desafio maior será sempre calar o crítico interior que constantemente teima em dizer-me que não sou ninguém, que não mereço ter voz, que não mereço estar aqui 

A dada altura, em 2017, mudou-se para Londres. Como foi esse período?

Foi mágico, duro, dilacerante e reconstrutor. Foi como se todo o tempo anterior fosse uma semente rica num solo pouco fértil. Reinventei-me e continuo a fazê-lo todos os dias desde então. Renasceu um entusiasmo em mim. Aprendi muito.

Correu como o esperado porque, pelos vistos, ainda aqui ando: trabalhei, estudei, desenvolvi-me. Tudo o resto foi encontro entre sorte e trabalho. Dizer que não mudou a minha vida e/ou carreira seria mais do que injusto. Londres tem uma determinada energia. É uma cidade que ou nos destrói ou nos constrói. E se for o caso da segunda, uma determinada frequência instala-se e vive e mora em nós. É a minha casa. A minha segunda casa (poderá ser uma décima terceira casa um dia). Mas sempre casa.

Onde me vejo daqui a dez anos? Feliz, com as contas pagas e uma casa minha. Talvez um cão. E, se a vida me der essa chance, um filho e a minha família

Qual foi o trabalho mais desafiador até hoje e porquê?

O mais desafiador será o seguinte, porque o desafio maior será sempre calar o crítico interior que constantemente teima em dizer-me que não sou ninguém, que não mereço ter voz, que não mereço estar aqui. Além disso, somos facilmente julgados neste mundo e neste meio. Posso ter feito um trabalho muito bem executado e ninguém ver, um trabalho onde a composição não foi tão certeira e ser destruído. Portanto, o foco é interno e no processo contínuo.

Mas compreendendo o que procurava na sua questão: o mais desafiador terá sido, sem dúvida, este "Lisbon Noir", e igualmente interpretar o Dr. Francisco Sá Carneiro.

Onde gostava de se ver daqui a dez anos?

Não sei se os terei. Este pode ser o último projeto, pode não ser. De momento, o plano passa por regressar a Londres e continuar o que tenho feito: procurar trabalhos para sobreviver, voltar ao estúdio - seja com o Beschizza ou o Andrew Darren Elkins. Voltar ao mercado à procura de audições. Enquanto este ponto não entrar em conflito absoluto com o seguinte: Onde me vejo daqui a dez anos? Feliz, com as contas pagas e uma casa minha. Talvez um cão. E, se a vida me der essa chance, um filho e a minha família.