Filipe Vargas Abre O Coração No 'Alta Definição' Sobre A Doença Do Pai: "Estava Muito Perdido"



Filipe Vargas - que atualmente dá cartas na novela Páginas da Vida - foi entrevistado do programa Alta Definição, este sábado, 11 de abril. Numa conversa intimista com Daniel Oliveira, o ator partilhou o seu lado mais pessoal e recordou a doença de Alzheimer que foi deixando o seu pai num estado cada vez mais incapacitante.


"Nunca ninguém está preparado para isto. Quando tu, de repente, tens de ser a pessoa que cuida dos teus pais, nem sabes muito bem como é que se faz. Principalmente se há problemas mentais de Alzheimer, aí ficas mesmo sem linguagem, sem vocabulário, sem gramática, porque é outra pessoa. Não é o teu pai, é alguém. O teu pai desaparece e, de repente, há ali uma pessoa que tu nem sabes muito bem quem é", começou por contar.


"Ele nunca chegou a deixar de me reconhecer, mas havia alturas em que eu percebia que ele estava muito perdido. Sabendo quem eu era, ele não sabia onde estava. Nomeadamente quando estava cá em Lisboa, achava que estava nas Caldas da Rainha", assegurou Filipe Vargas.


"Essa desorientação, essa incapacidade de se lembrar da vida, das coisas e do mais simples (…) Custa ver [assim] esta pessoa em quem tu confiaste durante tantos anos, que era intelectualmente o teu explicador privado. De repente já nem me falava", recordou.


O ator definiu ainda a demência como "uma coisa horrível" e lembrou o que fez o seu pai querer partir. "O meu pai não atingiu esse patamar e foi ele que decidiu não ir até ao fim. Eu acho que ele também tinha mais pessoas na família, por exemplo, uma prima, que tinha tido um caminho gigante de decadência por causa do Alzheimer (...) Eu acho isso legítimo (…) Há um nível de autonomia do qual as pessoas não estão dispostas a abdicar", referiu.


Filipe Vargas confessou que o pai não se despediu, mas que, certamente, o terá feito à sua maneira. "Eu acho que ele percebeu que o passo a seguir seria ir para uma residência. A maneira como ele não encarava isso de uma forma positiva, ou como não lhe apetecia… Às vezes há um debate, que aparece e desaparece, sobre a eutanásia. Eu acho que as pessoas têm de decidir aquilo que é melhor para elas, juntamente com a família. Há situações de sofrimento físico e há situações de sofrimento mental. Vamos manter as pessoas vivas se elas não querem, para quê?", reforçou.


"Por que motivo é que as pessoas têm de fazer isto sozinhas? Há de ser sempre um momento que eu nem consigo imaginar, que eu já tentei revisitar, mas que ainda não consigo. No entanto, eu acho que se houver um apoio, do ponto de vista legal, que seja possível... É assim tão vital para as pessoas manterem um corpo vivo, com o coração a bater, quando aquela pessoa já não é aquela pessoa? Quando aquela pessoa já não faz o que gosta, não se lembra de quem gosta? Quando todos os laços que tinha com a vida foram cortados porque o cérebro apagou?", questionou.


Por fim, Fillipe Vargas comparou a doença de Alzheimer a uma casa com várias luzes que se vão apagando. "Imaginem uma casa com várias divisões e todos os dias se apaga uma luz de um quartinho (…) Quando olhava para o meu pai, eu via uma casa gigante, e de repente já não havia luz no primeiro andar, já não havia luz na parte direita do rés-do-chão, e aquilo ia apagar-se tudo. E ele resolveu apagar-se. Só assim", completou.