Catarina Furtado Quebra o Silêncio sobre Polémica de Cristina Ferreira

 


Depois de vários dias, Catarina Furtado decidiu falar publicamente sobre a polémica que Cristina Ferreira causou ao longo da semana por causa das suas palavras sobre um caso de alegada violação.



No domingo, dia 19 de abril, a apresentadora da RTP fez uma publicação na sua página de Instagram onde quebra o silêncio sobre o rosto da TVI, e explicou que não o fez antes "por sentir que não devia reagir a quente a algo que me provoca reações muito acesas". 

"Faço-o, criticando fortemente todo o tipo de insultos gratuitos que se soltam em momentos destes, possibilitados pelo alcance das redes sociais e por uma necessidade estranha e cobarde de quem se quer «vingar» do mundo dizendo apenas mal e que em nada contribui para a reflexão. Faço-o, sem nenhuma ponta de ódio, mas por vários motivos", começou por dizer. 

"A frase que motivou a indignação coletiva e milhares de queixas na ERC, foi dita por uma colega que tem a mesma profissão que eu, Cristina Ferreira. Embora com estilos, posturas e escolhas profissionais distintas, partilhamos a responsabilidade de ter um microfone aberto para milhões de pessoas", notou.

"E eu sei o que é ter muita exposição (para o bom e para o mau), mas também sei o que para mim representa essa responsabilidade, que implica uma gestão entre o conteúdo do que estamos a apresentar e uma dose inequívoca de bagagem pessoal que cada comunicador traz: o seu pensar", continuou. 

"Errar em direto acontece, já errei muitas vezes. Pedir desculpa e tentar fazer melhor é sempre uma opção, para a pessoa, para a estação. Mas o que considero importante sublinhar é que o que foi dito (e outras frases do mesmo género em situações diferentes ao longo dos anos) veio de um lugar onde não existe de facto a noção do impacto absolutamente nocivo que pode ter a formulação de uma pergunta", explicou de seguida.

"Não é intencional, é estrutural. Há uma postura machista que é abraçada por muitas mulheres, que se dizem não feministas, e é de facto grave quando esse discurso é normalizado, porque isso contribui e muito para a banalização do crime, da violência, da desigualdade de género, e em última instância, da misoginia que grassa na chamada manosfera (machosfera)", acrescentou. 

"Comentar assuntos seríssimos de cidadania e direitos humanos exige preparação, leitura de informação fidedigna e verificação de estudos. Há mais de 25 anos que me debruço sobre estas matérias que nos dizem respeito a todos e a todas nós, que implicam um exercício diário do questionamento, quer como Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações para a População quer como fundadora da associação Corações Com Coroa", opinou. 

"Foram já centenas as histórias reais que ouvi e documentei de raparigas e mulheres cujos direitos são permanentemente silenciados, negligenciados, esquecidos, pisados, violados. A violência com base no género não começa a falhar às mulheres no dia da agressão. Começa a falhar-lhes muito antes", prosseguiu. 

"Vou muitas vezes falar a escolas e vejo que as meninas continuam mais desprotegidas. Sinto na forma como os rapazes normalizam os seus comportamentos que evidenciam retrocessos gigantes e dos quais não têm sequer consciência. Todos temos responsabilidades nisso e os comunicadores e os meios de comunicação social têm a sua quota-parte", partilhou ainda.

"Frases públicas ambíguas sobre violência não são só frases infelizes. A linguagem abre espaço, branqueia, legitima, normaliza, e os rapazes deixam de ouvir e de conhecer os limites e desta forma paralisam o crescimento que permite uma sociedade mais igualitária. Os estudos são claros e mostram como a nova geração está recheada de rapazes mais misóginos com ideias arcaicas sobre o papel das mulheres", disse depois.

"As culturas digitais reacionárias e patriarcais estão a construir novas gerações que promovem ideias distorcidas sobre intimidade, consentimento, prazer mútuo, igualdade e liberdade. É por isso ainda mais perigoso que, quando se assiste a um episódio desta natureza, grave, ainda exista quem discuta a forma, o contexto, a interpretação, em vez de se defender com clareza que toda uma sociedade está a sair prejudicada.

Na chamada «vida real» o que testemunho é que as meninas andam cada vez com mais medo e não se «põem a jeito» quando estão apenas a viver os seus direitos, dizendo SIM ou NÃO quando lhes apeteceesperando respeito. O que está aqui em causa é um exercício de justiça social e o que aconteceu foi um tremendo beliscão à civilização, porque teve um grande alcance. A relativização da violência deve ser sempre confrontada", realçou. 

"Defender a vítima significa garantir que o crime não deve ser nunca normalizado através de uma retórica descuidada ou de falsas equivalências. É preciso ter consciência, empatia e curiosidade, quando se fala sobre a vida dos outros, não deixar que o discurso dos reality shows (que já contribuem também e tanto, infelizmente, para a normalização de comportamentos tóxicos e de manipulação), contamine tudo, alimentando convicções destorcidas do que significa consentimento e empoderamento feminino.

A influência negativa de um caso vai muito além do erro de uma pessoa só, por mais influente e mediática que seja: tem o nome das centenas de raparigas e mulheres que sofrem todos os dias. Sei que muitas mulheres pensam assim e essa aparente contradição também me preocupa muito. São sinais culturais, mas a solidariedade deve estar, sem hesitação, do lado de quem viveu abusos inqualificáveis", pode ainda ler-se na mesma publicação. 

"Também por isso, a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento é absolutamente essencial (bem ensinada), para combater o que estamos a viver, pelo menos, a pensar com esperança nos próximos anos. Tenho um filho e uma filha, já maiores de idade. Ponho as minhas mãos no fogo de como o meu filho nunca será um agressor porque eu, o pai e o resto da família sempre o educámos como feminista, com tudo o que isso implica de valores. Mas em relação à minha filha, tenho muito medo de que alguma vez, e não por «descuido» dela, possa vir a ser uma vítima. Tremo só de pensar nisso e também por ela decidi escrever este longo texto."

"A violação é desde 2025 um crime público, o que significa que não depende de queixa da vítima. É punida com uma pena de prisão de 1 a 6 anos, que pode ser agravada para 3 a 10 anos. É pouco e continuamos a ver penas suspensas e outras decisões que parecem ignorar o trauma eterno que provoca nas vítimas, a quem prefiro chamar sobreviventes. Quando o são. (P.S: Gostava muito que esta minha reflexão, que vem de um sentido de coerência também em relação à minha missão de vida, não fosse erradamente, de forma simplista, irresponsável e inconsequente, interpretada como um ataque pessoal a uma colega de profissão porque, honestamente, não é mesmo. Quero apenas contribuir construtivamente para uma mudança de mentalidades, também no meu meio profissional)", concluiu. 

Recorde o início de toda a polémica e as reações de Cristina Ferreira e da TVI

Cristina Ferreira causou uma 'onda' de críticas na semana passada por declarações polémicas sobre o caso de uma adolescente, de 16 anos, que foi alegadamente violada por quatro influencers, em Loures. O caso está no tribunal e o julgamento começou na passada segunda-feira.

"Porque nós temos de falar disto. Porque é assim: mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve... claro que tem de ouvir, mas alguém entende aquele: 'Não quero mais?'", opinou a apresentadora da TVI na "Crónica Criminal" do "Dois às 10", da TVI. 

Nuno Markl e Andreia Rodrigues foram duas das caras conhecidas que não ficaram caladas perante o sucedido. Mas houve muitos outros rostos que também se manifestaram, como Bruno NogueiraIva Domingues ou Tânia Laranjo.

A ativista Francisca de Magalhães Barros foi uma das primeiras influencers a reagir às declarações de Cristina Ferreira, tendo revelado na altura que apresentou uma queixa contra o "Dois às 10"/TVI à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).

Entretanto, a ERC confirmou que recebeu, até  ao passado dia 16 de abril, 3.300 participações relativas às declarações da apresentadora. E os pais da jovem de 16 anos alegadamente violada pelos quatro rapazes, em Loures, assinaram uma das queixas contra Cristina Ferreira.

A TVI reagiu a toda a polémica com um comunicado em que defenderam Cristina Ferreira. "Lamenta-se a forma, o tom, a descontextualização e a manipulação grosseira com que as palavras da apresentadora estão a ser interpretadas e disseminadas [...] Em nenhuma circunstância, a TVI, e naturalmente Cristina Ferreira, concordaria com a banalização de um qualquer crime e muito menos, o incentivaria ou desvalorizaria", podia ler-se na nota.

"Outra coisa também é a impunidade com que a ofensa gratuita e leviana se espalha, sem controlo, sobretudo nas redes sociais. Os tribunais a quem se recorrerá tratarão de repor a justiça", acrescentaram na altura.

Cristina Ferreira acabou por também quebrar o silêncio. Também em jeito de comunicado partilhado na sua página de Instagram, a apresentadora escreveu que "nunca houve qualquer tentativa de justificação para o alegado crime em causa", e que "as suas palavras foram proferidas no âmbito de uma pergunta aos comentadores da «Crónica Criminal»". Tendo acrescentado que "nunca teve qualquer intenção de justificar o alegado comportamento em causa". "Muito menos, tive intenção de diminuir o sofrimento da alegada vítima." 

Por fim, lamentou ainda do "puro ódio pessoal" que tem recebido, assim como a TVI.