O cantor Vitorino lembrou que António Lobo Antunes, que morreu hoje aos 83 anos, "nunca foi apenas o grande escritor que o mundo conheceu".
"Foi sempre o Senhor António - como gostava de ser chamado nas tabernas e restaurantes que frequentávamos -, um artesão das palavras que muitas vezes escrevia letras de canções em toalhas de papel, com uma Bic na mão", recorda Vitorino Salomé, que musicou e gravou vários poemas de António Lobo Antunes, numa mensagem enviada à agência Lusa.
O cantor lembra também que, "mesmo sendo um escritor mundialmente reconhecido", António Lobo Antunes "nunca esqueceu as raízes da cultura" portuguesa, "escrevendo textos para modas alentejanas e escolhendo para títulos dos seus livros nomes vindos do cancioneiro alentejano, como 'Eu hei-de amar uma pedra' ou 'Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar'".
"Hoje a literatura perde um gigante, e eu perco um amigo e um cúmplice de muitas aventuras", referiu ainda.
Vitorino editou em 1992 o álbum "Eu que me comovo por tudo e por nada", no qual interpreta 13 poemas da autoria de António Lobo Antunes. O álbum venceu o Prémio José Afonso 1993 e o Se7e de Ouro 1992 para Música Popular.
Dois anos depois, seria editado o único livro infantil da autoria de António Lobo Antunes, "A História do Hidroavião", com ilustrações de Vitorino Salomé.
Em 1995, Vitorino editou "A Canção do Bandido", álbum em que a maioria das letras das canções são poemas de Lobo Antunes.
Mais recentemente, em 2024, Vitorino editou o álbum "Não Sei Do Que É Que Se Trata, Mas Não Concordo", que inclui um tema com letra de António Lobo Antunes - "Não É Meia Noite Quem Quer".
O escritor António Lobo Antunes, um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, nasceu em Lisboa, em 01 de setembro de 1942.
Licenciado em Medicina, pela Universidade de Lisboa em 1969, especializou-se em Psiquiatria, que mais tarde exerceu no Hospital Miguel Bombarda.
Em 1970 foi mobilizado para o serviço militar e, no ano seguinte embarcou para Angola, tendo regressado em 1973.
Optou pela escrita a tempo inteiro em 1985, para combater a depressão que dizia ser comum a todas as pessoas.
O seu primeiro livro, "Memória de Elefante", surgiu em 1979, logo seguido de "Os Cus de Judas", no mesmo ano, sucedendo-se "Conhecimento do Inferno", em 1980, e "Explicação dos Pássaros", em 1981, obras marcadamente biográficas, muito ligadas ao contexto da guerra colonial, e pelo exercício da psiquiatria, que depressa o tornaram um dos autores mais lidos em Portugal.
Foi Prémio Camões em 2007.
O Governo aprovou hoje em Conselho de Ministros um dia de luto nacional em homenagem a António Lobo Antunes, que será cumprido no sábado.

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