“Temos De Começar Já”! Joana Machado Madeira Quebra O Silêncio Sobre Filha Vítima De Cyberbullying



A família Madeira foi um dos rostos que estiveram presentes na inauguração da Princelandia, no passado dia 21 de março, em Lisboa. 


Este é "um conceito renovado dedicado ao bem-estar emocional de pré-adolescentes entre os 8 e os 16 anos", como foi explicado em comunicado.  

"Mais do que festas temáticas, a nova Princelandia assume-se como um espaço de desenvolvimento pessoal, auto-estima e celebração consciente. A marca tem como missão fortalecer amor-próprio, autenticidade e confiança nas novas gerações."

Em conversa com o Notícias ao Minuto a prepósito do evento e de tal iniciativa, Joana Machado Madeira recordou a recente fase em que a filha mais velha, Leonor, foi vítima de bullying. Aliás, esta história foi muito falado nas últimas semanas precisamente por a família ter feito questão de expor a situação, que se vinha a agravar-se cada vez mais. 

Neste caso, Leonor mudou de escola e continuou a ser perseguida. Foi apresentada uma queixa-crime e agora tudo parece estar mais calma. Mas a causa continua a estar na ponta da língua da família: não ao bullying. E lamentam a falta de apoios.

Como é que perceberam que algo não estava bem com a Leonor?

A nossa casa - como o Eduardo disse em algumas entrevistas - é sempre o musical de Filipe La Féria, e foi quando a Leonor perdeu completamente esse lado. Já ninguém a ouvia a cantar, aquela Leonor que andava sempre a dançar já não existia, e sobretudo percebemos quando ela disse que já não queria ir mais para a escola. 

Na primeira vez ainda tentámos perceber o que é que se estava a passar, que se calhar era uma coisa que ia passar. Mas houve um dia em que ela me ligou à hora de almoço a pedir para a ir buscar, que não queria estar mais ali. 

Até esse dia ela nunca tinha desabafado convosco? 

Ela ia contando, eu ia tentando falar com os pais, com os professores, para estarem atentos, mas, de facto, parece que quanto mais o tempo passava, que nós achávamos que podia melhorar, mais as coisas ficavam piores.

Aquela ideia que às vezes temos de que vai passar, que é só uma fase, nem sempre é assim que acontece. No caso da Leonor, não, só foi começando a piorar. Pensámos que ao falar com os pais, com os professores, alguém ia pôr um travão nesta miúda, nesta bully, e não. Cada vez mais parecia que ela estava à vontade. 

Com a mudança de escola passou para cyberbullying. Foi quando fui pela primeira vez à polícia para perceber de que maneira é que poderíamos agir

A escola, a seu ver, não conseguiu dar a resposta que precisavam na altura? E tiveram que a mudar de escola?

A escola não conseguiu dar resposta.  Entretanto, depois de o Eduardo ter tornado isto público, recebi um mail - no dia 13 de março - do diretor pedagógico do colégio a dizer que só agora é que se já percebi de toda a dimensão do caso da Leonor. Até agora eu falava com a diretora de turma, falava com o diretor de ciclo e, pelos vistos, pelo que percebi agora, isto nem nunca chegou ao diretor pedagógico. 

Com a mudança de escola a situação melhorou? Como foi esse processo para a Leonor?

Com a mudança de escola passou para cyberbullying. A menina começou a fazer TikToks direcionados para a Leonor. Foi quando fui pela primeira vez à polícia para perceber de que maneira é que poderíamos agir. E depois percebemos que esta miúda andava a ligar para amigas da Leonor a perceber se ela estava com amigas novas no colégio ou não. O dia antes de o Eduardo ter feito o post [em fevereiro] foi quando percebemos que esta miúda ainda andava a ligar para amigas fora da escola, amigas do teatro da Leonor. Ela saiu daquela escola em outubro do ano passado. Portanto, além do TikTok, percebemos que havia uma perseguição.

Agora esta exposição, como é que está a situação? 

Sentimos que a menina, pelo menos diretamente, nunca mais se meteu com a Leonor. Soubemos de mais casos de bullying que a menina fez com outras duas crianças do colégio.

Pelo menos para já, nunca mais se meteu com a Leonor, mas nós também tornamos público, tínhamos a queixa-crime na polícia devido a uma conta falsa que tinham feito em nome da Leonor. Quero acreditar que ela deve ter-se assustado. Mas não se deve ter assustado muito porque nessa mesma semana ligaram-me mães do colégio em que ela fez bullying com mais outras duas raparigas. 

Talvez tenha assustado em relação à Leonor, mas isso não a vai travar. Acho que o comportamento desta rapariga em específico vai-se continuar a manifestar, vai continuar a fazer mal a outras crianças, mas não sei como que se pode travar isto. Se isto tudo não a fez parar, não sei o que é que a vai fazer parar. 

Tentaram falar com os pais da menina?

Tentamos ainda numa fase inicial, quando havia estas coisas da menina a excluir a Leonor, da manipulação, de dizer às outras para não serem amigas ds Leonor. O que os pais nos disseram sempre foi que são coisas de crianças, que é mesmo assim, e que nós é que somos exagerados e malucos.

Tenho participado em várias palestras de bullying ultimamente, e também estou a ser acompanhada pela Escola Segura aqui do Estoril, pelo posto da Polícia, e todos me dizem que o bullying começa exatamente assim. Começa com a exclusão, a manipulação, com os boatos... E depois se não é travado vai vai avançando. Sendo que aqui até avançou para cyberbullying. Se não tivéssemos tomado estas proporções todas, não sei onde é que isto poderia ter parado.

Temos que ser exagerados quando toca ao bem-estar dos nossos filhos. Temos que tomar medidas. Recebemos imensas mensagens de várias mães - e a Leonor inclusive entre vários miúdos - a passar para a mesma situação.

Aos 12 anos estás a formar a tua personalidade, o teu caráter, tens que sentir que pertences, que tens um grupo de amigos, e quando há alguém que manipula os outros para não ser nem teus amigos... Tem que parar esta miúda. Se com 12 anos é assim, então como é que vai ser aos 16, aos 17 e aos 18?

Está na altura de haver um departamento que nos ajude. Porque, de repente, tens os pais a dizer que és maluca, exagerada e tem de haver alguém que te diga que não. Não é exagero nenhum. Temos que dizer não e combater o bullying

E de que forma é que iniciativas como esta da Princelandia pode ajudar nestes processo, e neste caso no bullying?

Pode ajudar crianças que sentiram esta exclusão, que sentiram que não são aceites. Pode ajudar precisamente no ponto em que a Leonor está agora que é tornarem-se mais fortes. Se alguém não quiser estar com eles, essas pessoas é que estão a perder. Falo pela Leonor e por qualquer outra vítima que esteja a passar por isto. Ajudar a torná-las mais fortes, a gostarem mais de si próprias, a olharem para o mundo escolar de uma forma com mais força e confiança.

Ainda agora estava ver uma notícia de uma jovem que processou o Google e a Meta, porque criou uma dependência das redes sociais. E sinto exatamente isso, que os jovens estão completamente viciados nas redes sociais. Posso dizer que esta menina em específico é fez bullying à Leonor, depois destas notícias todas, houve uma mãe que me ligou e disse que foi perguntar à filha o que aconteceu e ela disse: "nós não podemos ir contra esta menina má porque tem 3 mil seguidores, ela é muito popular". 

Até então, aquela mãe nunca tinha falado com a filha. Tem a tudo a ver com as redes sociais.

Que tipos de ações/apoios é que fazem falta? Sente que neste momento em Portugal não existem recursos suficientes para ajudar as crianças nestas situações? 

Não, nada! Estivemos completamente sozinhos. Na escola, como disse, só passados cinco meses é que o diretor pedagógico me enviou um email. Parece que se tem medo de confrontar os bullies e os seus pais. Porque vamos criar aqui um problema, se calhar se ficarmos todos calados isto acaba por passado, não vamos arranjar-lhe um problema. A polícia faz o que pode. Apresenta-se a queixa crime, mas estamos à espera. Fizeram o perfil [nas redes sociais] da Leonor e estou à espera sem saber quando é que vou descobrir quem é foi a pessoa que o fez...

Não sinto que haja nenhuma espécie de apoio. Devia haver um departamento específico, porque cada vez há mais bullying, cada vez há mais cyberbullying, cada vez há mais crianças a passar por isto. Assim como temos os apoios a vítimas, devia haver um gabinete, uma linha de apoio para onde ligássemos a partilhar a situação e pedir orientação. O que é que posso fazer? A quem é que posso pedir ajuda? Quem é que pode falar com a escola em questão, fazer com que escola olhe para o caso e nos ajude?

Já está na altura de haver um departamento que nos ajude. Porque, de repente, tens os pais a dizer que és maluca, que és exagerada e tem de haver alguém que te diga que não. Não é exagero nenhum. Temos que dizer não e combater o bullying. 

Como está neste momento a Leonor depois de tudo isto ter acontecido e após esta exposição?

Está bem, feliz. Não posso dizer que não há uma mágoa ou uma tristeza, porque acabou por ter que mudar de escola, acabou por passar por esta situação. Sentiu que houve muitos amigos que não foram o que ela esperava que fossem para ela, mas sinto que saiu disto muito mais forte, confiante. 

Aquele medo que às vezes temos todos de estar sozinhos, sinto que ela neste momento já não o tem. E percebeu que o mundo não está cheio de pessoa boas, que nos desiludimos muito com as pessoas. Infelizmente ela tem 12 anos, mas já percebeu que a vida é muito injusta. 

Mas em toda a tristeza há sempre uma alegria. Ela conseguiu sair daqui mais forte e feliz - no sentido em que sabe exatamente neste momento quem são os amigos que quer ter perto dela. E já não qualquer pessoa só para poder pertencer.

São crianças, mas já estão a formar a sua personalidade e o seu carácter. E se queremos que depois em adultos eles sejam boas pessoas temos de começar já

E como é tem sido o impacto emocional desta fase para vocês enquanto pais?

Temos estado ao lado dela a 1200%. Muitas vezes eu ficava um bocado mais triste, mais preocupada e ela própria dizia-me que estava tudo bem e que estava mais feliz, que na escola nova tinha muitas amigas. Agora está muito estável e feliz.

Tivemos com coração muito apertadinho, mas nós vemos sempre o lado positivo. Conseguimos sempre tirar o bom partido disto. E na verdade é que foi mau, foi um processo familiar em que fomos todos muito abaixo, mas tiramos daqui coisas boas. As amigas da escola antiga que gostavam mesmo da Leonor e que estavam manipuladas pela outra menina, agora quando foi todo este impacto ligaram para a Leonor e pediram desculpa.

Tento ensinar à Leonor esta missão de perdoar e de aceitar as desculpas, porque de hoje para amanhã até pode ser ela a errar, a reconhecer e a pedir desculpa e vai gostar que a perdoem. 

E se nunca tivesse isso para a escola nova nunca iria cruzar-se ou conhecer as amigas novas que agora tem. Foi um período muito mau, eu estive muito aflita, para todos, mas gostamos de ver o lado positivo. 

Quer deixar alguma mensagem para outros pais? Reforçar algum conselho?

Falem sempre com os filhos e tenham o bom senso de perceber que isto não são só coisas de crianças. Mesmo quando são só coisas de crianças, os pais têm que intervir, têm que estar muito presentes. Eles são crianças, ainda não têm a maturidade que nós temos, é verdade, mas cabe-nos a nós, pais, a orientá-los, dar-lhes um conselho. Eles ainda não têm a capacidade de perceber que isto não é bom, isto não se faz... Tu gostavas que te fizessem isto a ti?

Claro que a Leonor acaba de gostar mais de uns amigos do que outros, mas tem que ser sempre simpática, educada, empática com toda a gente. E tem que se conseguir pôr sempre no lugar do outro.

Esta menina específica, que fez bullying, elas estão no 7.º ano e no 6.º ela estava sempre a almoçar sozinha. A Leonor estava com o grupo de amigas e muitas vezes chegava a casa e fala sobre isso. E eu dizia-lhe para ela se juntar a ela. Na verdade, a Leonor começou a sentar-se perto dela e incluiu-a no grupo de amigas. 

Não me posso arrepender de ter ensinado a minha filha a fazer o bem, porque só a ensinei a fazer o bem, a estar lá para os outros, mesmo que não sejam os nossos melhores amigos. Mas temos que estar lá, temos que os ajudar. Eu não me posso arrepender. Depois a miúda excluiu a minha? É horrível, mas é um comportamento da outra menina, não é da minha. A minha fez o que estava certo.

A Leonor às vezes também chega a casa e conta coisas que lhe digo que não foi fixe [da parte dela]. E digo-lhe para mandar uma mensagem a pedir desculpa. Claro que podia dizer que são coisas de crianças e que a Leonor dissesse o que quisesse. Mas não! A até ela ter 18 anos vou sempre fazer questão de estar aqui a orientá-la para ser uma boa pessoa, e até em adulta. 

São crianças, mas já estão a formar a sua personalidade e o seu carácter. E se queremos que depois em adultos eles sejam boas pessoas temos de começar já.