Ainda existe um grande tabu sobre o uso de psicadélicos, tanto a nível clínico, para tratamentos de saúde mental, como recreativo. De maneira a acabar com os mitos relacionados com o uso destas substâncias, o psiquiatra Pedro Castro Rodrigues lançou o livro "Revelar a Mente", baseado na sua investigação e experiência enquanto médico.
Atualmente, Pedro Castro Rodrigues exerce funções de Clinical Research Fellow no Department of Brain Sciences do Imperial College London, mas trabalhou durante 15 anos no Hospital Júlio de Matos, tendo coordenado os serviços de internamento agudo de Psiquiatria do adulto, bem como a Unidade de Depressão Resistente, onde implementou um dos primeiros protocolos clínicos de terapia com psicadélicos no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
O que é que o levou a escrever este livro?
Este livro surgiu no contexto do meu trabalho clínico, como psiquiatra no Hospital Júlio de Matos, da investigação que tenho vindo a fazer em Londres e da consciencialização que tenho tido ao interagir com várias pessoas, ligadas profissionalmente - ou não - à área da saúde mental.
Tenho observado uma tendência relativamente ao tópico dos psicadélicos em saúde mental de perspetivas um pouco polarizadas. Por um lado, algumas pessoas veem estas substâncias como muito perigosas e são contra o seu uso - ou, às vezes - um uso muito restritivo - e outras pessoas, devido a alguma evidência científica, com uma mensagem radicalmente oposta, de que são substâncias milagrosas, que vão resolver todos os problemas da humanidade.
Na minha opinião, as intervenções com estas substâncias não são nem uma coisa, nem outra. Estou um pouco a meio caminho entre o lado do estigma e do medo e o lado da "moda" que em alguns setores estas substâncias poderão ser enquadradas.
A ideia de escrever o livro foi para tentar transmitir ao público interessado na saúde mental uma perspetiva equilibrada e baseada na ciência em relação a estas substâncias.
Os psicadélicos são uma classe específica de substâncias psicoativas que se caracterizam por causar uma alteração muito marcada no estado de consciência da pessoa

© Reprodução/Leya
Que tipos de psicadélicos existem?
Existe um termo geral mais lato para todas as substâncias que atuam no cérebro e na mente: as chamadas substâncias psicoativas, das quais existem várias classes. Há alguns exemplos que as pessoas utilizam no seu dia a dia, como a cafeína, o álcool, os antidepressivos, ansiolíticos mais em contexto clínico… Tudo isto são substâncias psicoativas, tal como a canábis, a cocaína, a heroína.
A substância psicoativa indica, simplesmente, uma substância que atua no cérebro e produz efeitos na mente.
Os psicadélicos são uma classe específica de substâncias psicoativas que se caracterizam por causar uma alteração muito marcada no estado de consciência da pessoa, ou seja, por alterarem tanto a perceção - aquilo que a pessoa vê, o que sente - como também aquilo que a pessoa pensa e, por vezes, transmitindo novas perspetivas.
Podem também causar alterações mais dramáticas na forma como a pessoa se vê a si própria. O termo técnico para esta alteração é a dissolução do ego. Esta é uma alteração muito específica dos psicadélicos e que os caracteriza, porque outras substâncias psicoativas não têm tipicamente este efeito.
Também há tipos diferentes de psicadélicos, certo?
Sim. Tipicamente classificam-se em dois tipos: os psicadélicos clássicos e os atípicos.
Os clássicos são 4 substâncias: a psilocibina, que é uma substância de origem natural presente em algumas espécies de cogumelos, conhecidos como "cogumelos mágicos"; o LSD, exemplo de um psicadélico de origem sintética, apesar de haver derivados de LSD em alguns fungos e plantas; a mescalina, que é uma substância presente em algumas espécies de catos; e o DMT, presente em algumas misturas de plantas, uma delas conhecida como "ayahuasca".
Qual a diferença entre os psicadélicos clássicos e os atípicos?
A definição de psicadélicos clássicos e psicadélicos atípicos tem a ver com o mecanismo de ação. Os clássicos, que são estas quatro substâncias, têm um mecanismo de ação conhecido por atuar num recetor específico de um neurotransmissor que é a serotonina e separam-se de outras moléculas que têm efeitos com algumas semelhanças aos psicadélicos, mas que não têm o mesmo mecanismo de ação deste recetor da serotonina.
Dentro da classe dos psicadélicos atípicos incluem-se algumas substâncias como o MDMA, conhecido como ecstasy, a cetamina, que é um anestésico que tem sido investigado na área da saúde mental, e muitas outras moléculas.
Estes psicadélicos, tanto os clássicos como os atípicos, têm o potencial de serem aplicados em tratamentos de saúde mental?
Todos os que eu falei têm esse potencial e estão a ser investigados ativamente.
O ecstasy, ou o MDMA, está neste momento numa das fases mais avançadas de desenvolvimento de investigação como tratamento para perturbação de stress pós-traumático
Inclusive o ecstasy?
Sim, o ecstasy ou o MDMA, está neste momento numa das fases mais avançadas de desenvolvimento de investigação como tratamento para perturbação de stress pós-traumático. Um dado importante é que estas substâncias, quando são investigadas como tratamentos, não são utilizadas apenas como uma droga ou como uma substância. São incluídas num protocolo de tratamento que inclui suporte psicológico ou psicoterapêutico e fases específicas de preparação para a experiência, que é acompanhada - ou vigiada - e depois há um espaço para a pessoa poder integrar os conteúdos da experiência.
Quando se fala da investigação com potenciais tratamentos não se fala apenas da administração das substâncias, mas sim de esta estar enquadrada num protocolo que inclui suporte psicológico, que é tão importante como a substância em si.
Como é que, enquanto psiquiatra, percebe que o tratamento com este tipo de substâncias poderá ser mais efetivo do que os tratamentos mais clássicos e que habitualmente são feitos? Como é que se sabe que um determinado psicadélico será benéfico e que não causará habituação/vício?
Começo até pela última parte da pergunta, em relação ao vício e habituação. Cada uma destas substâncias de que falei, sobretudo se diferenciarmos os psicadélicos clássicos dos atípicos, tem uma diferente tendência ou perfil para causar dependência.
Os clássicos são uma das poucas classes farmacológicas nos quais não existem casos de dependência descritos. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, nem todas as substâncias psicoativas têm tendência para causar adição. Muitas têm. O álcool e a cafeína e até o MDMA e o ecstasy, apesar de terem um potencial baixo. Existem casos descritos de adição em MDMA. A cetamina tem um perfil de dependência mais elevado em contexto recreativo.
A pessoa que tenha uma experiência com um psicadélico clássico, se quiser voltar a tomar a mesma substância no dia ou na semana seguinte, tipicamente não sente efeitos, porque existe um perfil de tolerância farmacológica que faz com que o efeito já não exista mesmo em doses mais elevadas.
Não existem casos descritos em adição a estas substâncias, o que com isto não quer dizer que não possa existir uso problemático, mas é muito mais raro do que com outras substâncias aceites na nossa sociedade, como o álcool e o tabaco, que têm um perfil de adição muito mais elevado do que os psicadélicos clássicos.
Sempre que falamos de adição temos de perceber que as adições se desenvolvem no contexto em que são utilizadas. Quando estas substâncias são utilizadas em contexto clínico, a probabilidade de as pessoas virem a desenvolver uma adição é muito inferior a quando utilizadas em contexto recreativo. Isto é válido sobretudo para o MDMA e a cetamina, que tem um perfil de adição um pouco mais elevado do que os psicadélicos clássicos, mas quando usadas em contexto clínico existe um número limitado de tomas e de doses, os quais sabemos à partida que a probabilidade de a pessoa desenvolver uma dependência é muito baixa. Mas esse é um tópico de investigação ativo.
E quanto à primeira parte da pergunta?
Quando me pergunta "como é que nós sabemos que para uma determinada pessoa um tratamento com psicadélicos será melhor do que um tratamento com antidepressivos ou com psicoterapia?". Essa é uma área de investigação muito ativa. Na maioria dos ensaios clínicos nas áreas de saúde mental onde estes tratamentos têm sido investigados, o que se tem optado na fase em que estamos é para se utilizar estes tratamentos em pessoas que não responderam aos tratamentos convencionais.
Se uma pessoa com depressão que tentou pelo menos dois antidepressivos e não melhorou desenvolve um quadro a que chamamos de depressão resistente, é um exemplo de uma população ou de uma amostra nos ensaios com tratamentos de psilocibina ou da terapia com cetamina.
No entanto, e isto é importante dizer, nesta área há uma tendência para demonizar os antidepressivos ou os ansiolíticos. Sabemos que 30% das pessoas com depressão desenvolve este quadro chamado de depressão resistente e para elas é importante haver alternativas.
Os seus colegas de profissão partilham a sua perspetiva em relação aos psicadélicos ou há psiquiatras céticos quanto ao assunto?
Existem as duas coisas. Há psiquiatras que têm estado informados sobre aquilo que a investigação tem mostrado e que têm feito formação na área. Um exemplo é uma associação chamada SPACE, que é uma associação de médicos e terapeutas portugueses que tem feito implementação de psicadélicos em contexto clínico. Implementámos no Hospital Júlio de Matos, que combina cetamina com psicoterapia para pessoas com depressão resistente. Outras unidades têm sido implementadas em Portugal: o Hospital Beatriz Ângelo, o Hospital de São João, o centro clínico da GNR...
Tudo isto tem sido feito por equipas que acreditam no potencial destas substâncias, que estão a par da investigação, que têm feito formação na área e têm usado clinicamente estas substâncias.
Mas existem também muitos psiquiatras e médicos ainda com uma perspetiva negativa em relação à utilização destas substâncias e penso que isso também é compreensível.
90% da população utiliza substâncias psicoativas, quando estamos a falar de álcool, cafeína, tabaco, canábis, MDMA, etc. É importante que as pessoas tenham informação sobre como o fazer de forma segura
Porquê?
Porque os médicos, à partida, sobretudo quando fazem serviço de urgência, contactam muito mais com as consequências negativas do uso das substâncias do que com as positivas. Está descrito na sociologia como o viés.
A profissão médico por ser mais exposta às consequências negativas tende a ter uma visão mais negativa de todas as substâncias psicoativas do que a população geral. É mais frequente uma pessoa dirigir-se a um médico e falar sobre os problemas que teve com o álcool, o tabaco, o MDMA, ou qualquer substância psicoativa, do que dizer que tem feito um uso seguro. Há aqui uma área importante que é a redução de danos, ou seja, de que forma é possível informar as pessoas para que possam usar substâncias psicoativas de uma forma segura.
90% da população utiliza substâncias psicoativas, quando estamos a falar de álcool, cafeína, tabaco, cannabis, MDMA, etc. É importante que as pessoas tenham informação sobre como fazê-lo de forma segura. Penso que os médicos podem ter um papel importante a transmitir à pessoa determinados riscos que algumas substâncias em determinados contextos poderão ter, mas também benefícios.
A substância que as pessoas que querem ter uma experiência recreativa ou celebratória num concerto, festival, bar ou discoteca encontram à venda é o álcool, que causa muito mais danos para a saúde do que por exemplo o MDMA
Sabemos que uma das características que estas substâncias têm, sobretudo os psicadélicos clássicos, é que o seu efeito está altamente dependente do contexto em que são utilizados. Todas as substâncias psicoativas têm um certo grau de dependência do contexto, incluindo os ansiolíticos ou álcool.
Nos psicadélicos essa dependência é muito maior, o que faz com que uma pessoa que os queira utilizar em contexto recreativo tenha de garantir que o contexto em que, apesar de ser de celebração, tenha um conjunto de características de segurança para que não seja uma experiência difícil, a chamada "bad trip".
A substância que as pessoas que querem ter uma experiência recreativa ou celebratória num concerto, festival, bar ou discoteca encontram à venda é o álcool, que causa muito mais danos para a saúde do que por exemplo o MDMA. Isto é curioso, porque a maioria das pessoas considera que o MDMA por ser ilícito é uma substância com muitos riscos. Aquilo que a investigação tem demonstrado é que é uma substância com menos potencial de causar dano do que álcool.
Que tipo de danos?
Quando se pensa nos danos associados às substâncias psicoativas, não temos de pensar só no potencial de adição. Esse é um fator muito importante, mas existem outros. O risco de acidentes, a tendência para a agressividade. Se pensarmos nestes fatores, o álcool torna-se uma substância muito mais grave do que outras.
Com isto, não quero dizer que são substâncias livres de riscos, claro que não. As pessoas adultas e informadas devem ter, na minha opinião, a informação suficiente para depois tomarem uma decisão informada.
Algo que abordo no meu livro é a tendência que começa a acontecer no panorama global de se repensar a proibição ou a guerra às drogas. O grande impacto em relação aos psicadélicos foi no final dos anos 1960, quando o LSD começou a ser utilizado pelo movimento da contracultura americana e isto foi visto como um problema para a administração de Richard Nixon, que queria fazer a guerra no Vietname e estas pessoas tinham a tendência a opor-se, sobretudo após utilizarem psicadélicos.
Há um contexto político que é muito mais relevante para as leis das drogas do que o contexto científico.
Que contexto seria esse?
Na altura, a evidência científica mostrava que eram substâncias promissoras e não perigosas. Mas, de facto, houve um uso desregrado, um desconhecimento de como utilizar as substâncias de forma segura e tudo isso levou à sua proibição.
Mas aquilo que a ciência tem mostrado nos últimos 25 anos é que muitas destas substâncias são mais seguras do que aquilo que a maioria das pessoas pensa, mas que implicam cuidados em relação a doses, contextos e isso tem feito com que muitos países comecem a reformular as suas políticas em relação às drogas, passando de um modelo proibicionista - e algo paternalista, podemos dizer em relação ao Estado ao escolher as substâncias que as pessoas têm liberdade de utilizar - e passar a ser as pessoas a tomar a decisão.
Alguns estados dos Estados Unidos, a Alemanha, Austrália e outros países estão a tomar medidas no sentido de legalizar a terapia com psicadélicos no contexto clínico, quer seja de modificarem o panorama geral para as pessoas utilizarem psicadélicos ou outras substâncias psicoativas, sem com isto correrem riscos de estarem a cometer um crime.
Pessoas que saem à noite, que vão a festivais e a discotecas sabem que é quando se começa a beber álcool que depois se vai consumir outras substâncias mais perigosas, como a cocaína, não é quando as pessoas consomem canábis
Não existe nenhuma evidência científica desse padrão em relação à canábis. Isso é um mito que foi criado devido à grande campanha contra a canábis, que começou nos anos 1930, nos Estados Unidos. Na altura, os imigrantes mexicanos começaram a ser culpados pela crise económica que se sucedeu à Grande Depressão, da mesma forma que, curiosamente, alguns atores políticos também gostam de culpar alguns imigrantes. O governo americano associou o uso de canábis a estes imigrantes mexicanos, criminalizou a canábis - até lhe chamou "Marijuana", porque era um termo que se associava à comunidade - sem na altura haver qualquer evidência de que era uma substância perigosa.
Gosto de contrastar a ideia de que a canábis é uma "gateway drug" com a ideia de que o álcool poder ser uma "gateway drug". Pessoas que saem à noite, que vão a festivais e a discotecas sabem que é quando se começa a beber álcool que depois se vai consumir outras substâncias mais perigosas, como a cocaína, não é quando as pessoas consomem canábis.
Há um mito muito grande de que a canábis leva ao uso de outras substâncias. Claro que existem casos em que isso acontece, não estou a negar que isso aconteça, o que estou a negar é que isso seja um padrão do qual nós temos evidência.
Considera que com a informação que as pessoas têm atualmente conseguiriam fazer o uso seguro de substâncias se estas se tornassem legais?
Na minha opinião, só se elas se tornassem legais é que as pessoas podiam fazer um uso mais seguro. Nos modelos de legalização e regulação pelo Estado, quando as pessoas adquirem uma substância é-lhes dada uma informação sobre a forma mais segura de utilizar esta substância e é-lhes oferecida ajuda no caso de precisarem de tratamento.
Em Portugal, como disse, faz-se o uso clínico da cetamina no Hospital Júlio de Matos e em outras instituições. Esta substância está muito associada à morte de celebridades, sendo o caso do ator Matthew Perry um dos mais conhecidos. Percebe-se que em contexto clínico pode ser fundamental, mas e a nível recreativo? Como é que se encara?
A cetamina é, provavelmente, a substância mais complexa de todas as que se falaram. A cetamina é usada como anestésico há muitos anos e é um dos anestésicos mais seguros que a medicina tem, está dentro da lista dos medicamentos essenciais da OMS (Organização Mundial da Saúde).
Em contexto de uso como adjuvante da anestesia é seguro. Em contexto de utilização na psiquiatria em pessoas com depressão ou com outras adições, tem havido muita evidência de que é eficaz para pessoas que não melhoraram com antidepressivos e que é relativamente segura em contexto clínico.
A cetamina em contexto clínico pode ser utilizada em dois contextos diferentes: uma é só como medicamento, em que o paciente faz infusões repetidas de cetamina durante semanas, meses ou anos. Não é este o modelo que começámos a aplicar no Júlio de Matos, porque sabemos que a substância tem potencial aditivo muito superior aos psicadélicos clássicos e muito superior ao MDMA. Sabendo deste potencial aditivo e do que o uso recreativo que a cetamina tem mostrado, preferimos no Hospital Júlio de Matos a na maioria dos hospitais e clínicas em Portugal fazer o menor número possível de sessões de cetamina e emparelhar com psicoterapia para reduzir o risco de dependência.
Atenção, que não é por um medicamento ter um risco de dependência que não deve ser utilizado. Os médicos prescrevem todos os dias medicamentos com risco de dependência. O principal exemplo são os ansiolíticos.
Tem havido nos últimos anos um aumento global do uso de psicadélicos clássicos, mas isso não parece estar associado a problemas de saúde pública. Mas com a cetamina não parece bem o caso
E no uso recreativo?
Aí, o potencial de dependência mostra-se elevado. No Reino Unido, tem havido um aumento muito grande do uso recreativo de cetamina nos últimos anos e com problemas associados.
Também tem havido nos últimos anos um aumento global do uso de psicadélicos clássicos, mas isso não parece estar associado a problemas de saúde pública. Mas com a cetamina não parece bem o caso.
Em contexto recreativo como a substância tem potencial aditivo, as pessoas começam por utilizar esporadicamente, depois passam a utilizar uma vez por semana, depois diariamente... e quando esse uso diário começa a acontecer pode ter consequências físicas importantes, sobretudo a nível da bexiga.
Existe risco de overdose com a cetamina e parece que o ator Matthew Perry foi um desses casos. Porém, não há casos descritos de overdose de psilocibina ou LSD, são substâncias fisiologicamente seguras
Nomeadamente...
Causa uma condição grave ao nível da bexiga. Em alguns casos tem até de ser eliminada. É uma substância muito mais perigosa em contexto recreativo do que os psicadélicos clássicos e o ecstasy. Mas devido à dificuldade de se falar sobre estes temas, há pessoas que podem acreditar que é uma substância segura por estar a ser utilizada em saúde mental.
Além disso, os efeitos psicológicos da cetamina são diferentes, afeta a capacidade motora, que é algo que os psicadélicos clássicos e o MDMA não fazem. Ao afetar a forma como a pessoa consegue controlar o seu corpo, aumenta o risco de acidentes. Começam a existir casos de pessoas que utilizam cetamina em excesso e têm consequências negativas.
Também é importante dizer que às vezes se diz que como é um anestésico seguro não existe risco de overdose. Isso não é verdade. Existe risco de overdose com a cetamina e parece que o ator Matthew Perry foi um desses casos. Porém, não há casos descritos de overdose de psilocibina ou LSD, são substâncias fisiologicamente seguras. Mesmo que uma pessoa por engano tome uma dose 10 ou 20 vezes superior, a probabilidade de ter uma overdose com consequências para o funcionamento do organismo ou até morte é praticamente nula.
Em Portugal, o maior problema que houve com drogas foi a heroína nos anos 1980 e início dos anos 1990, que levou a uma campanha do dizer não às drogas. Apesar de essa mensagem ser útil do ponto de vista da saúde pública na altura, é uma mensagem problemática, porque dizer não às drogas implica que todas as drogas tenham um perfil de insegurança e que a melhor resposta é não as utilizar
Em Portugal, o maior problema que houve com drogas foi a heroína nos anos 1980 e início dos anos 1990, que levou a uma campanha do dizer não às drogas. Apesar de essa mensagem ser útil do ponto de vista da saúde pública na altura, é uma mensagem problemática, porque dizer não às drogas implica que todas as drogas tenham um perfil de insegurança e que a melhor resposta é não as utilizar. Sabemos que esta estratégia não funciona do ponto de vista da saúde pública, não é por as pessoas ouvirem que não devem utilizar drogas, que vão deixar de o fazer.
É um não paradoxal e irónico. Porque dizer não às drogas e vender álcool e tabaco é de uma ironia brutal, porque são do ponto vista científico drogas perigosas, mas que nós enquanto sociedade fomos aprendendo a lidar, aprendendo a forma como as utilizar de forma segura. Claro que há pessoas que acabam por não o conseguir fazer, daí os muitos problemas na sociedade atual do ponto vista da dependência, ou dos acidentes, etc. Toda a gente sabe, penso eu, que o álcool tem riscos, mas fomos aprendendo a manegar estes riscos, porque se percebeu historicamente que proibir não resulta.
O passo mais importante no sentido de melhorar a relação que as pessoas têm com as drogas e as substâncias é dar informação. O modelo regulado pelo Estado poderia até - tal como o álcool e o tabaco têm taxas associadas à sua venda - que todo o dinheiro que as pessoas quisessem utilizar em substâncias ilícitas e acabam por dar a traficantes associados a redes criminosas, passasse a ser o dinheiro que o Estado utilizaria em campanhas de informação e psicoeducação, bem como campanhas de tratamento para as pessoas que desenvolvem problemas com substâncias.
Nem eu, nem a maioria dos investigadores nesta área defende a transição para a legalização de todas as drogas e substâncias. Aquilo que tem sido feito em alguns países é perceber de que forma a venda ou uso de substâncias poderá ser feita de forma mais segura. Alguns começaram pela legalização do uso recreativo de canábis, outros optaram pelos psicadélicos clássicos e existem outros modelos escritos e ponderados e que estão a ser pensados.
Acho que é necessário alguma atualização, progresso, um olhar para o que a ciência nos tem mostrado, tentarmos reformular os mitos e os preconceitos com os quais fomos crescendo e perceber que a utilização de substâncias acompanha a humanidade desde que existe.
O exemplo de Portugal é um dos poucos modelos de política que são elogiados internacionalmente. Todas as pessoas desta área elogiam o ato corajoso dos políticos em 1990 de descriminalizar o uso de drogas para lidar com o problema da heroína. Portugal foi altamente progressista nos anos 1990. Eu, às vezes, coloco a hipótese de se não estaria na altura de também ser progressista em 2026 e acompanhar os esforços que têm começado a acontecer noutros países e modificar o padrão regulatório para algumas substâncias e testar modelos diferentes onde haja alguma informação.
Se a legalização vai permitir que todas as pessoas utilizem estas substâncias de forma segura e deixe de haver problemas? Não. Vão sempre existir problemas relativamente ao consumo de substâncias. Daí o termo "redução de danos". Que as pessoas o façam de uma forma informada.

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