Uma mulher que atravessava o saguão da Rodoviária do Rio carregando duas malas chamou a atenção de uma equipe do Batalhão de Polícia de Turismo (BPTur) no ano passado. Atentos a comportamentos suspeitos, os agentes decidiram abordá-la em meio aos passageiros apressados que corriam para embarcar naquela tarde de fevereiro. Durante a revista, os policiais abriram uma das bagagens trazidas do ônibus e encontraram, escondidos entre os pertences, um fuzil e dois carregadores. Aos agentes, a mulher contou que havia saído da Bahia, passado por Vitória, no Espírito Santo, e que a carga tinha como destino a Rocinha, comunidade da Zona Sul dominada pelo Comando Vermelho.
Ela foi presa em flagrante em mais um caso do chamado tráfico de “formiguinha”, estratégia em que o armamento é fracionado e transportado, em muitos casos, por mulheres, como forma de tentar driblar a fiscalização.
Só no ano passado, policiais do BPTur atuaram em dez ocorrências envolvendo o transporte de armas de fogo na Rodoviária do Rio. Em sete delas, houve a prisão de mulheres. Ao analisar os dados que incluem também o transporte de drogas, o número de ocorrências no ano passado sobe para 41 casos, sendo 31 com mulheres presas, o que representa cerca de 76% do total.
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O envolvimento cada vez mais presente de mulheres no tráfico de armas foi tema de uma pesquisa publicada em formato de artigo na Revista de Inteligência de Segurança Pública, da Escola de Inteligência de Segurança Pública da Polícia Civil do Rio. No estudo, Tatiane Corrêa Portella Magalhães, que é pós-graduada em Direito Penal e Processo Penal, analisou três anos de prisões em flagrante de mulheres transportando armas de fogo na rodoviária entre 2019 e 2023.
Os dados mostraram que a mair parte das mulheres presas (65%) nessas ocorrências era jovem, na faixa etária entre 18 e 24 anos. A maioria também tinha o ensino fundamental incompleto. De acordo com o artigo, as jovens são recrutadas pelas facções com a promessa de ganhos financeiros rápidos, sendo pagas com valores entre mil reais e R$ 2 mil pelo serviço.
30 pistolas
Em 11 de novembro do ano passado, a polícia descobriu, por meio de informações de inteligência, que uma pessoa estava trazendo um carregamento de armas de São Paulo para o Complexo do Alemão. A equipe realizou uma operação no posto de fiscalização de Nhangapi, em Itatiaia, onde encontrou o material durante a abordagem a um ônibus de turismo que vinha do Brás. Os agentes localizaram três caixas de almofadas onde estavam escondidas 30 pistolas calibre 9 mm e 63 carregadores. A bagagem pertencia a Gilmara Barbosa dos Reis Assis, de 27 anos.
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Ela contou informalmente aos policiais ter recebido R$ 2 mil para realizar o transporte interestadual, contratada por “uma amiga”. Ela não deu mais detalhes sobre como a intermediação ocorreu e afirmou apenas que um motorista faria contato no Rio para recolher a carga e levá-la até a comunidade.
Bruno Langeani, especialista em controle de armas e consultor do Instituto Sou da Paz, explica que, do ponto de vista numérico, é mais comum ver mulheres sendo recrutadas como “mulas” no tráfico de armas e munições, mas há muitos casos em que elas ocupam papéis na cadeia de comando.
— A escolha de mulheres, nesses casos, busca reduzir o risco de abordagem policial, partindo da premissa de que elas despertam menos suspeitas. Apesar dessa presença mais frequente em funções de transporte, também já foram identificadas mulheres em posições mais estratégicas dentro dessas redes criminosas, atuando no recrutamento, na logística e, em casos pontuais, até na chefia de esquemas de tráfico de armas. Esses dados desafiam visões simplistas sobre o papel feminino no crime organizado — pontua.
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Transações milionárias
É o caso de Ana Lúcia Ferreira, de 41 anos, presa após investigação conduzida pelo delegado Pedro Cassundé, da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD). Segundo a polícia, ela era responsável por intermediar a compra de armas e drogas com fornecedores para abastecer criminosos no Rio.
A experiência de Ana Lúcia em fechar acordo com criminosos de na fronteira com o Paraguai elevou seu prestígio junto a criminosos do CV, a ponto de ela ser considerada essencial em negociações de drogas e armas de grande porte em acordo milionários. Em uma troca de mensagens obtida pela polícia, Ana Lúcia se gabou da sua influência ao contar que fornecedores ofereceram US$ 5 mil (cerca de R$ 26 mil) apenas por ela apresentar Fhillip da Silva Gregório, conhecido como Professor, como comprador. Antes de morrer, no ano passado, ele atuava como chefe do tráfico no Complexo do Alemão e articulador da compra, distribuição e transporte de cocaína, armas de fogo e munição.
Apesar de ser apontado como um dos principais “matutos” da facção no Rio, as conversas obtidas pela polícia demonstram que Professor não só respeitava a atuação de Ana Lúcia no meio do tráfico como também tentava se tornar independente dela nos negócios. No material telefônico apreendido pelos investigadores, uma conversa entre Professor e Ana Lúcia revela que ela ajudou um comparsa do traficante, identificado como Luiz Eduardo Grego, conhecido como Cocão, a conseguir preços mais baixos na compra de cocaína com um fornecedor de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul.
Ao perceber que o negócio só estava sendo fechado por participação direta dela, Professor enviou uma mensagem ao comparsa dizendo: “Tem que tomar a frente, mn (mano), pra ninguém ficar falando por nós”. Ao fim da investigação, Ana Lúcia foi indiciada por lavagem de dinheiro, tráfico interestadual e associação para o tráfico.

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