Depois de suspeitas de maus-tratos infantis na Academia Sonhar e Crescer, na freguesia de Carnide, em Lisboa, pais e educadores organizaram ontem, dia 9 de fevereiro, um protesto que tentou impedir a abertura da creche.
Entre relatos de pais e denúncia de uma ex-funcionária, as descrições apresentadas apontam para agressões, crianças amarradas, desmaios e até traumatismos cranianos.
No seguimento deste caso, Andreia Amaral, fundadora e gestora do SOSMAMÃ, pronunciou-se nas redes sociais e deixou alguns alertas para pais e educadores.
Subsequentemente, numa entrevista exclusiva ao Lifestyle ao Minuto, a enfermeira especialista em saúde do bebé, pós-parto e segurança infantil, explicou melhor como é que os pais poderão identificar os primeiros sinais de violência nas creches.
Sinais físicos e comportamentais de maus-tratos infantis
Nos bebés, os casos de maus-tratos nem sempre são nítidos e, dada a dificuldade de exprimir e relatar os acontecimentos, "pode ser particularmente difícil de identificar".
Ainda assim, a especialista adverte para o aparecimento de "hematomas inexplicáveis, fraturas, queimaduras, lesões repetidas ou incompatíveis com a idade e o nível de desenvolvimento do bebé".
Apesar das marcas serem o indicador mais visível, não se deve limitar o diagnóstico a estes fatores. "Alterações comportamentais como choro excessivo e inconsolável, apatia, retraimento, dificuldades na alimentação ou no sono também podem ser indicadores de que algo não está bem", esclarece. A especialista refere ainda que a "negligência emocional e afetiva, apesar de menos visível, tem impactos profundos e duradouros".
Leia abaixo a entrevista completa.
Como identificar maus-tratos num bebé?
Nos bebés, os maus-tratos podem ser particularmente difíceis de identificar porque não existe linguagem verbal. Alguns sinais de alerta incluem hematomas inexplicáveis, fraturas, queimaduras, lesões repetidas ou incompatíveis com a idade e o nível de desenvolvimento do bebé. Além disso, alterações comportamentais como choro excessivo e inconsolável, apatia, retraimento, dificuldades na alimentação ou no sono também podem ser indicadores de que algo não está bem.
Os sinais de alerta são todos físicos?
Não. Embora os sinais físicos sejam os mais visíveis, os maus-tratos não se manifestam apenas dessa forma. Existem sinais emocionais e comportamentais muito relevantes, como medo excessivo, hipervigilância, ausência de resposta ao contacto, atraso no desenvolvimento, falta de vínculo com o cuidador ou comportamentos regressivos. A negligência emocional e afetiva, apesar de menos visível, tem impactos profundos e duradouros.
A partir de quando é que se deve tomar medidas?
As medidas devem ser tomadas ao primeiro sinal de suspeita, mesmo que não exista certeza absoluta. A proteção da criança deve sempre prevalecer.
De que medidas se tratam?
As medidas passam por comunicar a situação a profissionais de saúde, educadores, assistentes sociais ou diretamente às entidades competentes, como a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ). Quanto mais cedo houver intervenção, maior é a probabilidade de prevenir danos graves. Reforço que o alerta pode ser dado anonimamente em formulário específico no site da CPCJ.
De que forma é que os maus-tratos podem afetar o desenvolvimento da criança?
Os maus-tratos podem comprometer seriamente o desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social da criança. Podem estar associados a atrasos no desenvolvimento, dificuldades de aprendizagem, problemas de regulação emocional, baixa autoestima, ansiedade, depressão e, em casos mais graves, dificuldades nas relações interpessoais ao longo da vida adulta. O stress tóxico vivido na infância tem impacto direto no desenvolvimento do cérebro.
A ideia de que “uma palmada não faz mal nenhum” às crianças pode estar a perpetuar maus-tratos?
Sim. Essa ideia contribui para a normalização da violência como forma de educação. A evidência científica mostra que qualquer forma de violência física, mesmo considerada “ligeira”, pode ter efeitos negativos no desenvolvimento emocional da criança e perpetua um ciclo de agressividade. Educar através do medo não ensina autorregulação nem respeito, apenas submissão momentânea.
Que mudanças são necessárias para evitar este tipo de situações?
É fundamental investir na prevenção, através da educação parental, do apoio às famílias, da promoção da saúde mental e da criação de redes de apoio acessíveis. É igualmente necessário reforçar a literacia emocional da sociedade, combater a normalização da violência e garantir que profissionais e comunidade saibam identificar sinais de risco e agir atempadamente. Proteger as crianças é uma responsabilidade coletiva.
Ressalvo que apesar da legislação de momento não permitir a videovigilância em contexto educativo, circula uma petição pública desde dia 9 de fevereiro de 2026 que teve mais de 10.000 assinaturas em menos de 16 horas, no sentido de aumentarmos a segurança das crianças em contextos educativos, respeitando a legislação em vigor, nomeadamente a proteção de dados pessoais e os direitos fundamentais.

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