Gilmário Vemba é um dos rostos mais conhecidos da atualidade no humor no nosso país. Nasceu em Angola, onde começou a crescer profissionalmente, mas em Portugal teve oportunidades que o tornaram uma das caras mais queridas do entretenimento. Passou pela rádio Comercial, fez parte do elenco de "Taskmaster", onde venceu até uma edição, e já conduziu também o talk-show da RTP1, "Cinco para a Meia-Noite".
Foi no stand up que tudo começou e o seu mais recente espetáculo, "3º round", traz ao público uma versão mais madura de Gilmário Vemba. Falamos com o humorista que nos contou tudo sobre o novo trabalho que tem datas marcadas para os próximos meses e um pouco por todo o país.
Em fevereiro, poderá pode ver Gilmário Vemba em Águeda (6 fevereiro) e em Lisboa (15 fevereiro).
Já começa a entrar aquela veia da reclamação meio portuguesa. Vou percebendo também o porquê. Se calhar por ter vivido numa realidade onde reclamar é sempre um ato de rebeldia total
O que é que podemos esperar do seu novo espetáculo, "3º round"?
A ideia do "3º round" surge devido a uma auto-observação. Começo a olhar para o mundo e a perceber que é uma terceira fase de muitas coisas. Primeiro, a minha terceira fase de estar a viver em Portugal, já sou praticamente um morador, moro cá há quatro anos. Estou no meu terceiro casamento, é o meu terceiro round desta luta de tentar solidificar uma relação. Cheguei também aos 40 anos, o que é uma terceira etapa. Há também a possibilidade de uma terceira guerra dado o avanço tecnológico que nós temos.
O espetáculo traz esses elementos todos, esse olhar da polarização política, que também é uma coisa em que, ao viver aqui, me senti envolvido. A realidade de Angola é completamente diferente, nós não temos sequer a questão ainda da polarização política, não tivemos ainda esta oportunidade. Mas acredito que vamos lá chegar.
Fazer rir o público é sempre o mais importante?
O meu objetivo principal é fazer rir as pessoas, é tentar olhar para isto tudo e tentar gozar com todos esses aspetos, tentar ver onde é que estão as hipocrisias, onde é que está a ironia, onde é que estão todos aqueles elementos que nós, enquanto humoristas, utilizamos para fazer o nosso trabalho.

© Instagram - Gilmário Vemba
Como é que surge a inspiração para escrever os guiões do espetáculo?
Inspiro-me em tudo, ligo a televisão, falo com as pessoas, tenho a minha própria experiência. Tenho um estilo de observação, estou sempre a observar a sociedade, estou sempre a observar as pessoas, estou sempre a observar-me e é com isso que vou construindo as minhas piadas, para criar este modelo de storytelling como se estivesse só a contar uma história em que ando para trás e para frente, e comparando realidades no passado e no presente e as realidades de Angola e Portugal.
Quando percebi o impacto que o meu trabalho tinha nas pessoas percebi que não queria fazer outra coisa na vida. Desde os 17 anos que ganho a minha vida assim
Morando em Portugal há quatro anos, já tem alguma característica que considere mais portuguesa?
Acho que já começa a entrar aquela veia da reclamação meio portuguesa, a vontade de reclamar de tudo e mais alguma coisa começa a crescer cada vez mais. Vou percebendo também o porquê desta reclamação. Se calhar, por ter vivido numa realidade onde reclamar é sempre um ato de rebeldia total. Vou percebendo também a lógica do 'tuga' e percebi a velha premissa, «quem não chora, não mama». Se quiseres realmente ver alguma coisa resolvida a teu favor, tens de aprender a reclamar e a fazer barulho.
Como é que começou a sua carreira na comédia, como é que surgiu esse gosto por fazer rir os outros?
Era muito novo. Vou para o teatro primeiro, muito por falta de amigos. Era novo no bairro e queria seguir o meu irmão Nelson. Depois encontrei no teatro a possibilidade de mais rapidamente fazer humor. Fiz alguns anos de teatro, acabei a estudar teatro em Angola. Só que, depois, queríamos uma ferramenta que pudesse ajudar a promover as piadas. Naquela altura, estamos a falar no ano de 2000, era muito difícil conseguir ir à televisão ou à rádio. Fizemos pequenos sketches que levamos a restaurantes e a espetáculos.
Depois fui descobrir o stand-up. E, em 2003, a altura que nós oficializamos os Tuneza como um grupo humorístico, estava na moda esse género. O stand up começa a chegar ao mercado em português, mais propriamente no Brasil. Em Portugal começa-se a falar muito, e surge o "Levanta-te e Ri". Vou tendo acesso a isso tudo no cybercafé através da internet, ou através de cassetes que parentes meus traziam de Portugal e do Brasil para Angola. Apaixonei-me por esta comédia feita em palco e sentia-me no sítio certo. Quando percebi o impacto que o meu trabalho tinha nas pessoas percebi que não queria fazer outra coisa na vida. Desde os 17 anos que ganho a minha vida assim.
Há outro público a que, com uma sorte muito grande, consegui chegar com o convite do "Taskmaster". Foi ouro sobre azul
Quando é que o Gilmário toma a decisão de vir para Portugal?
Para nós, países que foram ex-colónias, a primeira ligação que temos em termos de viagem internacional é Portugal. É mais fácil, em termos de comunicação, e não somos completamente estranhos para aquelas pessoas. Começo a vir para Portugal em 2019 mas sempre a trabalho. Vim gravar publicidades, programas de televisão... De 2015 até 2019, pelo menos duas vezes por ano, estava aqui durante dois meses a gravar programas.
Em 2019, saio do grupo Tuneza e lanço-me na carreira a solo. Começo a pensar numa internacionalização da minha carreira, começo a ir para Moçambique fazer espetáculos e também a vir para Portugal mas com outra mentalidade. Não queria vir para Portugal atuar para a comunidade angolana, queria-me apresentar aos portugueses. Fiz uma mini tour pelo país, fiz a Aula Magna com 1.500 pessoas, tudo a correr bem mas a seguir veio a pandemia.
E como é que se lida com essa frustação de ver o plano que tinha projetado a ir "por água abaixo"?
Volto para Angola e não consigo vir mais para Portugal. Mas tinha um contrato que já estava assinado e tinha de o cumprir, tinha de arranjar uma forma de vir para Portugal. A minha agente em Angola mexeu tudo e arranjou uma forma de me meter num voo humanitário para vir para Portugal para conseguir cumprir este contrato. Quando cheguei aqui, percebi que se voltasse para Angola, provavelmente, já não voltava para Portugal. Aproveitei o tempo em que estava aqui para continuar o projeto de stand up, faço comedy clubs, e começaram a surgir alguns espetáculos.
E é aí que surge o convite para o programa "Taskmaster"? Sente que esse projeto foi uma rampa de lançamento?
Dentro do universo dos amantes da comédia acho que estava bem entregue. Mas há outro público a que, com uma sorte muito grande, consegui chegar com o convite do "Taskmaster". A seguir, surge o convite da rádio Comercial para fazer a rubrica "Responder à letra". Foi ouro sobre azul. Nós sabíamos que o "Taskmaster" ia ser espetacular, tinha tudo para dar certo. Quando o programa foi para o ar, não tinha outra hipótese. Fui tão bem abraçado pelos portugueses que tinha de aproveitar isso para me mudar para cá. Sair de Angola e vir para Portugal significa oferecer segurança, significa oferecer mais oportunidades para os nossos.
O Gilmário participou em três temporadas de "Task Master" e foi o grande vencedor da quinta temporada. Podemos saber onde é que guarda o famoso busto de Vasco Palmeirim?
[Vai buscar o prémio e mostra-o orgulhoso] Está mesmo aqui na minha sala para que toda a gente que aqui entra perceba que está a entrar na casa de um vencedor "Taskmaster".

© Instagram - Gilmário Vemba
O ambiente entre vocês todos é mesmo como transparece no programa?
Fiz muitos amigos, damo-nos todos super bem. Tornei-me muito amigo da Jessica [Athayde] da Inês [Aires Pereira], do Toy, do Cândido [Costa].
A seguir vem o convite para apresentar o "Cinco para a Meia-Noite". Foi um marco importante?
Aprendi que, muitas vezes, até aqueles desafios que na tua cabeça não fazem assim muito sentido também podem ser aceites. Queria fazer parte do programa porque há grandes reis do humor que passaram por lá, grandes pessoas do entretenimento que passaram por aquele programa, o Nuno Markl, o Luís Filipe Borges, o Nilton.
Quando recebi o convite do "Cinco", para mim era poder passar por um local onde essas pessoas que eu admiro passaram. Mas havia também o medo de magoar a memória de um programa que faz parte de muitos portugueses e eu sei como é que nós somos com as nossas coisas. Aceitei porque sabia que o convite vinha de um sítio bom.
Como é que se sente ao saber que é um dos grandes nomes do humor em Portugal?
Muito feliz, tenho de agradecer às pessoas que gostam do meu trabalho. Sinto mesmo esse abraço, principalmente quando saio de Portugal e vou para as comunidades. Isto foi uma prova de que eu tinha entrado para a família portuguesa.
O Gilmário ainda fica nervoso quando sobe a palco?
Todos os dias. Já me disseram que é um sinal de que me importo com aquilo que vou fazer. Que me importo com as pessoas que vão receber o que vou fazer. Há 23 anos que subo a palco nervoso. Não houve uma única vez na minha vida que tenha subido a palco e achado que ia só despachar aquilo.
Como é que o Gilmário colmata as saudades do seu país e família?
Sou um imigrante que tem a oportunidade de constantemente voltar para casa, continuo a ter muitas coisas para fazer em Angola, sou capaz de ir lá todos os meses. Tenho a sorte de poder estar aqui, estar com os meus filhos, com os meus três irmãos que estão aqui. Tenho também aqui muita família, os meus tios e primos.

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