Morre Udo Kier, Ícone do Cinema de Culto e Ator de "O Agente Secreto", aos 81 Anos



O cinema mundial perdeu neste domingo (23) um de seus rostos mais marcantes. O ator alemão Udo Kier, conhecido pela versatilidade e por uma carreira que atravessou seis décadas e mais de 250 filmes, morreu aos 81 anos. A informação foi publicada pela Variety e confirmada por Delbert McBride, artista visual e marido do ator.


Nascido em Colônia, em plena Segunda Guerra Mundial, Kier transformou uma trajetória improvável em uma das carreiras mais singulares do audiovisual. Sua expressão enigmática e os olhos azuis hipnotizantes tornaram-se marca registrada de um artista que transitou com naturalidade entre terror, drama, comédia, ficção científica, suspense e até o cinema erótico.


Conexão com o Brasil

Nos últimos anos, Kier estreitou laços com o cinema brasileiro. Ele integrou o elenco de “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e voltou a trabalhar com o diretor pernambucano em “O agente secreto” (2025), atualmente em cartaz. Sua presença magnética em tela rendeu elogios da crítica e aumentou sua legião de admiradores no país.


Uma carreira ao lado dos maiores cineastas

A filmografia de Udo Kier impressiona pela diversidade e pela lista de diretores com quem colaborou. Ele trabalhou sob a batuta de nomes como:


  • Wim Wenders, em Um truque de luz (1995)
  • Michael Bay, em Armageddon (1998)
  • Gus Van Sant, em Garotos de Programa (1991)
  • Quentin Tarantino, em Grindhouse (2007)
  • Dario Argento, em Suspiria (1977)

Lars von Trier, com quem firmou uma das parcerias mais duradouras de sua carreira, em títulos como Epidemia (1987), Europa (1991), Ondas do Destino (1996), Dançando no Escuro (2000), Dogville (2003), Manderlay (2005), Melancolia (2011) e Ninfomaníaca (2013)


Da juventude turbulenta ao reconhecimento internacional

Kier nasceu em circunstâncias dramáticas: o hospital onde veio ao mundo foi bombardeado instantes depois de seu nascimento. Aos 16 anos, mudou-se para o Reino Unido para estudar inglês — e lá acabou descobrindo seu caminho artístico, ainda que insistisse que nunca sonhara em se tornar ator. Seu primeiro papel surgiu quase por acaso, aos 18 anos, quando o diretor Michael Sarne o convidou para interpretar um gigolô no curta Road to Saint Tropez (1966).


De volta à Alemanha, tornou-se presença constante em produções independentes e logo se aproximou do cultuado diretor Rainer Werner Fassbinder, entrando para um seleto círculo de talentos do cinema alemão.


Nos anos 1970, ganhou projeção internacional estrelando Carne para Frankenstein (1973) e Sangue para Drácula (1974), dirigidos por Paul Morrissey e produzidos por Andy Warhol — obras que marcaram época pelo teor erótico e pela ousadia estética.


Chegada a Hollywood e reinvenções

Durante os anos 1990, Kier deixou de ser apenas um nome associado ao cinema experimental e conquistou espaço em Hollywood. Participou de produções populares como:


  • Ace Ventura: Um Detetive Diferente (1994)
  • Blade: O Caçador de Vampiros (1998)

A partir daí, ele se consolidou como um ator raro: capaz de atuar em grandes blockbusters sem abandonar o cinema autoral — e sempre imprimindo uma aura misteriosa e magnética aos personagens.


Um legado indelével

Udo Kier deixa uma carreira marcada pela ousadia e pela recusa em se limitar. Seu talento atravessou fronteiras, estilos e gerações, transformando-o em um dos intérpretes mais curiosos e fascinantes do cinema contemporâneo.


Sua partida encerra um ciclo brilhante, mas seu rosto, sua voz e seus personagens — sempre únicos — continuam vivos nas telas que ajudou a reinventar.